“SOPA
DE LÁGRIMAS”
O relógio marcava 17:30min.
Quando o telefone tocou, a
mulher já sabia quem era.
Atendeu. Um largo sorriso
iluminava-lhe o semblante.
"Mãe? Faz pra mim aquela sopinha
que só você sabe fazer tão bem”?
Olhos brilhantes de satisfação,
a mulher aquiesceu feliz. Tão
logo desligou, pôs-se a separar
os ingredientes para a sopa.
Sorriu novamente. Ainda "ouvia"
a voz do filho.
Por volta das 18:30 ligou a tv
enquanto cozinhava. O silêncio
da casa foi quebrado pelo som de
gritos e sirenes. Eram 19hs.
Imensas labaredas lambiam as
paredes do prédio em que o
Airbus da Tam se chocou.
Explosões sucessivas aumentavam
as chamas. Gigantescas cortinas
de fumaça negra dificultavam a
visão dos bombeiros.
Horrorizada, pensou no filho e
sentiu um forte aperto no
coração. Grossas lágrimas
saltavam-lhe dos olhos e caiam
diretamente na sopa que, num
gesto mecânico, ela ainda mexia.
Seguiu-se outra explosão e o
fogo tomou conta de todo o
prédio onde seu filho
trabalhava. Correu para o
telefone e, trêmula, discou o
número do rapaz. Um apito, nada
mais.
Tresloucada, ganhou as ruas,
correndo sem rumo. Os vizinhos
bem que tentaram, mas não
conseguiram detê-la. Através da
porta aberta quem passasse podia
ouvir a tv ligada.
No fogão, a sopa fria...
Miriam Panighel Carvalho |