Contra-dança
Marco Antonio de Sousa Bastos

e ela vem, e ela vai...
um passo a frente, outro atrás...
nos passos da contra-dança
dançam também os meus ais.

e eu a tenho em meus braços,
corpo morno em minhas mãos.
se rodopio em meus passos
no espaço lá vem seus irmãos.

da festa então nós fugimos,
de cinco irmãos não dou conta,
se levo prá casa uma afronta,
tu vais sofrer nos teus mimos.

na rua então percebemos
que a noite minha era tua
e foi isso que nós fizemos,
fugindo, dançamos na lua.

e lá dançamos mil valsas
concerto, harmonia infinita,
de lá, era a Terra bonita,
estrelas em nada eram falsas.

sonhar só sonha quem sonha
e aí voltamos para casa.
não quero sonhar, quero asa,
a dançar uma valsa na fronha.

e aqui agora é poesia,
do jeito que tu quiseste,
fizeste a noite tão fria,
e que o calor eu te desse.

lá fora a noite ainda desce
e eu muito mais ainda faço.
faço dos beijos e abraços,
o cobertor que te aquece.





O OLHAR DA ESTÁTUA
Marco Antonio de Sousa Bastos


olhos ternos, semi-cerrados,
lá dentro há vida. na escultura,
diamantes cravados na testa altiva
- sublime, vive a História...

olhar de semi-deuses
antigos brilhos sorridentes
- colunas, capitéis de louros cachos
sustentam há séculos a luz perdida...
- conchas, pálpebras do mar,
onde se ouviu a voz do vento...

olhos que se embrenham na escuridão do ser,
retida a imagem da última claridade
- lá morou a luz e se ri a ex_cultura.


Tergi_Verso
Marco Antonio de Sousa Bastos



Das categorias aristotélicas
às kantianas verdades
apriorísticas ou a posteriori.

Das dialéticas socráticas
à convergência na complexidade
do Teillard de Chardin.

Da engeliana dialética
à hegeliana espiritualidade
pré-materialista.

Tudo isso não abole
por mais que bula, receita,
dogma, potência e ato,
o hiato do ser como é,
diferente da abstração
que o conceitua!...

Mudo os paradígmas,
muda o mundo,
e o mundo muda mudo...

Penso que sou dono da verdade
e nesse momento juro existir um touro
entre a cerca e o muro.

E tudo faço como se ele existisse
e até subiria em coqueiros
que vejo no meu estrabismo
de bêbado que sou,
como você,
a vida inteira.

E tudo é como é,
do amigo Zé, o touro
que não existiu.

Mas somos o touro e eu
indissociáveis
quando penso: ele existe.

Essências que não conheço...
Relações que percebo
ora verdadeiras
e falsas ambiguamente...

Eu sou somente
aquilo que sou ou penso ser
quando tudo que não pensa, é!
como não pensa que é...
tão simplesmente.

Mas também não precisaria
beber a vida inteira
para descobrir
que a vida é bebedeira.

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  07.06.2009  

  

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