Guizos

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS

A noite vem com seus tenebrosos
guizos, afiados dentes, gotas de veneno.

Acabou o vinho, fugiram as idéias.
Rodam fantasiosas imagens na escuridão.
Acendam, acendam a luz, quero falar!
Não sei donde vim, nem pra onde vou.
Nas linhas do Tempo, o Bem e o Mal
fazem a corte, buscando luz quase no infinito.

Irei contrito, navegador neste mar de belezas,
sonhos, encantos, mistérios, o que mais?
Sempre haverá obscuros recantos n’alma,
fantasmas dançarinos em quartos vazios.
Saudade dos tempos em que era,
do que não é mais realidade.

Nada mais será o ontem,
mas o menino de Pau D’Alho
vislumbra claros recantos na memória,
a fechar cicatrizes de ausências.

Talvez no fim da linha encontre você,
que me gosta, que me ama,
que balança a rede em que durmo,
(que me faria cafuné nessas frias noites do Sul)
que me aquece de carinhos,
e quando estou triste me alegra, me beija,
você que é o meu bem, o meu amor,
a minha musa, o meu tudo na vida!



Ofícios de mar e terra

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS

Entre soluços e sombras
avança a tarde quase suarenta.
A hora é cinzenta, nostálgica,
O navio deixa o porto lentamente.

Cobre-se o olhar sob o aceno de lenços.
Ao dolente apito da máquina,
tudo se transmuta em saudades.

(Morena, morena, qual jambo maduro...)
As pedras do cais banham-se de lágrimas:
- O moço do barco foi-se, não sabe
quando voltará!

Cantarola, ao longe, o marujo,
espanta tristezas além dos arrecifes.
A cada rochedo, em cada farol,
a vida vai ficando sem graça.

Enquanto isto, em terra,
o acendedor de lampiões
cumpria o seu oficio,
alumiando o cais e ruelas mortas.



O milagre do riso

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS

Em teu sorriso o milagre da vida,
ele me diz que estás feliz,
tudo se organiza em teu belo corpo,
em tua cândida alma.
Este sorriso que dormitava há milênios,
vem como flor saudando o sol,
aos primeiros albores da manhã,
e os crepúsculos, que eram sem graça,
agora bordam o céu de múltiplas e divinas cores.
Momento mágico, este do teu sorriso:
minhas alegrias estavam dispersas,
um traço de tédio na alma,
as belezas do mundo em antítese,
iam-se apegando lentamente.
Já um corvo mirava-me e ria...
Agora não.
Este teu sorriso, pura 1uz,
opera em mim o milagre das plantas,
que brotam com mais viço, após a poda,
e a vida me volta com mais força, ainda.


Confissão

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
(23/09/2002)

Ama-me como sou,
com meus defeitos e virtudes;
não mudarei nem mudarás.
Há matriz biológica em cada ser,
sabe bem Deus e nossos ancestrais.
Não mudarei nem mudarás,
mas há um elo entre nós,
energético:
a corrente que nos uniu.
No fundo dos teus olhos me vejo,
sou um Cristo carregando a Cruz.
Subiremos o Calvário...
E quando,
de braços abertos,
der o último suspiro,
saberás o quanto te amo
e saberei o quanto me amas.
Se vivêssemos mais cem anos,
saberíamos estas verdades
em vida!



Consolação
José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
(28/04/2007)
“ O que consola a dor de amar é ser amado “ ( Luiz Delfino, Poesia
Completa, Tomo I, Sonetos, É preciso morrer, p. 305 )

Não fica triste meu amor!
que hoje é nosso dia.
- Quanto tempo esperamos
o estar frente-a-frente!
fazer nos teus olhos a leitura
do quanto é bom viver,
amar com toda força e harmonia.

Os teus lábios tremem,
tal como a flor,
ao beijo ardente de um colibri;
em tuas faces há um novo mundo:
interação de corpo e alma.
Vem de ti o aroma dos desejos,
a natureza a teus pés
diz que é chegada a hora
de amar ou morrer, de morrer de amar.

Não fica triste meu amor!
Nesse “hermoso“ dia de nossas vidas
dar-te-ei tudo o que pediste
e terei tudo que sonhei.
Ouviremos o cicio do vento,
afago da brisa do outono,
o cochicho amoroso dos ícones;
nuvens brancas passearão olhares de lua
sobre nossos corpos exangues de amar.

Iremos como quem mergulha no oceano
à procura de preciosa pedra
oculta no fundo das cavernas.
Instalaremos definitivamente o amor,
gravado no tempo, com o fogo das paixões.

Não fica triste meu amor!
Hoje seremos santificados,
no encontro sem mácula
de seres apaixonados.



Modinha Vento / Saudade

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
(09/04/07)

Tempo de vento,
vento norte, vento sul,
vento que vai e que vem,
vento forte, vento fraco,
às vezes brisa suave,
quão suave a vida é,
quando o amor está presente.

O vento vai sem destino,
sem destino vai o vento,
leva mensagem de amor,
traz carinho mas não o faz.

Gira mundo, mundo gira,
no seio da ventania,
e tu onde estás Maria?
No vento há um doce lamento:
- saudade do teu cantor.



Segredos

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
(O poeta é o artista da palavra;
interpreta a universalidade, não o particular.)

Meus segredos não digo a ninguém.
Frutos de paixões,
todos moram no ego,
onde fizeram ninho.
Estão no sacrário, no meu coração.

Não perguntem quais são.
Somente as cinzas dirão,
se falarem.

Se quiserem saber,
haverão de seguir-me,
em vigília permanente.
Num piscar de olhos,
fujo com eles.
O sacrário não se pode abrir.

Todos eles giram em torno de algo
parecido com uma flor
bela, perfumada,
guardada para o ser amado.

A espera é como fosse a glória,
o céu, a salvação,
a sublime presença de Deus.
Jamais saberão.
Só dirão as cinzas,
acaso delatoras.

O sacrário não se pode abrir.



Ninfa da Noite

José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
(05/09/2006 a 28/04/2007)

Esta noite foi a noite mais bela que tive,
em cada partícula de sombra tu estavas
meu sono eu não sabia por onde vagava,
mas te sabia inteira no sonho e na saudade.

Esta noite não pude dormir pensando em ti,
estavas mais bela que uma noite de luar;
porque fizeste minh’alma incendiada de amor,
insone fui em teu corpo febril navegar.

Esta noite foi sombra, imagem, inquietude,
fizeste-me escravo e “mui” feliz na escravidão.
De todos amores que tive foste o mais forte
e somente tu revives em minha solidão.

Esta noite se esvai e na sombra do passado
ficam amor e leveza – passos de balé.
Eu fui o par que ficou para o dia que vem
e tu a ninfa da noite, o meu céu estrelado.

Biografia

POESIAS

 

 

 

 

 

 

l Página Inicial l Índice l Livro de Visitas l

 

 

Copyright © 2006,Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores.
Todos os direitos reservados.

Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  02.06.2009  

  

Você é o visitante número
 
Counter
 

Webdesigner:  Sonia Orsiolli