A Vida
Jandira Mello de Almeida Cahet



A vida é como certa chuva,
ergue-se do mar ao encontro das nuvens
A grinalda enfeitada de uva
e de angúnstias perde-se os bens.

Ninfas cantam Euterpa a Alegria,
jasmins bailam no paraíso,
a beleza persegue Afrodite com euforia
e Eco embala o amor de Narciso.

Ouço sonho de velhos companheiros
rodopiando em torno da silente vida
com temores de pássaros faceiros
que o tempo não elucida.

Chove cá embaixo nas horas incertas
Sócrates faz parir idéias pela maiêutica,
o nirvana é a paz para o humano,
para o texto sagrado a hermenêutica
e a vida dos mortais um engano



Canto do Amor Perdido
Jandira Mello de Almeida Cahet


Entre as estrelas mais perfumadas
floresceu um amor como o arco-íris
por um segundo pensei encontrar-me sonhando
e neste tempo minh'alma se encantou

Ao cantar do melro tagarela
comecei a fazer versos tão amados
o amor me pegou desprevenida
e no descompasso do meu coração
comecei a viver esta ilusão

Doces beijos e carícias tresloucadas
me despertavam a todo instante
o céu me parecia mais azulado
meu ser cantava em euforia

Nos lençóis macios do amanhecer
me encontrei a sorrir despreocupada
seria a felicidade acontecendo
ou mais uma ilusão dos apaixonados?



Perfume de Mulher
Jandira Mello de Almeida Cahet


Acordei como flores sorrindo
Os rios estavam cantando
Todo meu ser vive dormindo
E com os humores trocando

Pois quando a natureza canta
Fico no cimo de um oiteiro
Meu pensamento se encontra
Voando para o Rio de Janeiro


Não, não é o teu canto que aparece
Que pousa um momento em mim
mas o fantasma que acontece
No verso com cheiro jasmim

Longe de mim, só em mim existe
Depois do teu amor violáceo
E o olor que persiste
É açucena verbenáceo

A lua quando desce a terra
Pisa nos astros distraída
Sua luz perfeita encerra
Toda doçura desta vida.




Poesia e Loucura
Jandira Mello de Almeida Cahet


Nenhum pensamento criador
se erigiu lucidamente sem cruzar com a loucura
nesse cruzamento todo absurdo era dor
toda estranheza se esclareceu na cura

Foi o que aconteceu nesse impulso formidável
sem fronteiras, além da loucura e da razão
os elementos alucinados em harmonia infindável
a poesia alterou a relação com palavras como
o mundo da alienação

O compartilhado amor à palavra
em breve faria saber se poeta ou louco
o uivar ansiando consciência em lavra
viu censura erguida contra o coração ôco

Para o liberto se arremessou o mundo
inventou-se a falta de pontuação
de repente com grito espumante e profundo
a loucura assustou por ser incomunicável
e reinou a transparente razão.
 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  02.06.2009  

  

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