Quem observar atentamente o
firmamento das nossas latitudes
tropicais, nas limpas noites
primaveris e estivais, haverá de
extasiar-se com a visão inebriante
de três lindas estrelas alinhadas em
curta diagonal, exatamente no centro
de Órion, a mais formosa constelação
nos céus de verão.
Elas perfazem, com seu brilho e
alinhamento, justamente a cintura do
gigante caçador, Órion, imortalizado
entre os astros celestes pela
interferência de Zeus, o deus maior
do Olimpo, nas tramas da Mitologia
Grega. A constelação de Órion é
conhecida, e assim denominada, desde
a mais remota antiguidade clássica,
e a nominação das três estrelas
remonta à astronomia árabe e
mesopotâmica – Mintaka, Alnilan e
Alnitak, nomes todos designativos do
cinturão ou da cintura do Caçador.
Elas são as estrelas mais populares,
e universalmente reconhecidas, mesmo
pelas pessoas pouco afeitas à
observação noturna da abóbada
celeste. Na Europa são identificadas
com os Três Reis Magos – Gaspar,
Belchior e Balthazar – em verdade
não reis, mas sacerdotes, magos e
astrônomos que teriam vindo da
Média, a nordeste da antiga Pérsia,
guiados pela Estrela de Belém, ao
nascimento de Jesus.
No Brasil e praticamente em toda a
América Latina, elas são As Três
Marias. Para muitos observadores
incautos, três Marias quaisquer, que
o mundo inteiro está repleto de
Marias, ... e por que não o céu?
Para os inquiridores das verdades
ocultas nos tempos, elas representam
certamente as três principais Marias
bíblicas do Novo Testamento, Maria
de Nazaré, mãe de Jesus; Maria
Betânia, irmã do Lázaro
ressuscitado; e Maria de Magdala, ou
Madalena, a obstinada e íntima
companheira do Mestre em suas
peregrinas andanças pelos
empoeirados caminhos da Galiléia.
Em Astrofísica, as Três Marias,
assim como nas Sagradas Escrituras,
têm semelhanças e disparidades. Elas
têm magnitude quase igual entre si,
respectivamente 2,25 – 1,68 e 1,71
para Mintaka, a Maria superior,
Alnilan, a Maria do meio e Alnitak,
a Maria de baixo, quando Órion está
no levante, galgando o firmamento em
busca do seu zênite. Elas têm um
brilho levemente azulado,
caracterizando a jovialidade
estrelar, e distam de nós
respectivamente 918, 1.359 e 825
anos-luz, portanto quatrilhões de
quilômetros. E pensar que das Marias
bíblicas, nesses dois mil anos de
Era Cristã, estamos separados tão
somente por 63 magros bilhões de
segundos. Eis aí uma pálida visão da
grandiosidade do Universo, em sua
possível infinitude.
Das três principais Marias bíblicas,
a de menor destaque foi seguramente
Maria Betânia, uma figura todavia
bem caracterizada nos Evangelhos –
irmã de Lázaro e de Marta, mulher de
índole tranqüila e compassiva, e,
talvez, aquela a quem coube o
privilégio de ungir com nardo
precioso a cabeça e os pés de Jesus
(Mateus 26, 12), como que lhe
antecipando a sepultura. Suponhamos
que ela seja a Maria astronômica de
baixo, Alnitak.
Maria de Nazaré, a mãe de Jesus,
pouco aparece nas escrituras durante
a vida pública do Galileu. Avulta
porém na Anunciação, na Imaculada
Conceição, no nascimento, na fuga
para o Egito, no momento da
crucifixão e na sua perseveração no
Cenáculo de Jerusalém, após a
Ascenção do Senhor (Atos, 1, 14).
Quase toda a reverência e o culto a
esta Maria, incluindo os dogmas da
Virgindade e da sua própria assunção
aos céus, são produtos rituais e
canônicos originados em decisões,
nem sempre pacíficas, de concílios
do Vaticano e encíclicas papais. A
Bíblia, em si, não fala
explicitamente da virgindade de
Maria após o nascimento de Jesus. E
muito menos da sua assunção. Digamos
que ela seja Mintaka, a Maria de
cima, posição compatível com a sua
supremacia no imaginário popular e
na doutrina cristã, apostólica e
romana.
Resta-nos a análise de Maria
Madalena, Alnilan ou a Maria
astrofísica do meio. Madalena, ao
contrário de Betânia, era de índole
impetuosa e decidida, conquanto
seguidora fiel de Jesus. Existe uma
certa confusão bíblica sobre a
identidade de Maria Madalena,
companheira assídua do Nazareno, com
a Madalena liberta pelo Mestre de
uma possessão demoníaca, e até mesmo
de uma possível outra Madalena,
fulcro do episódio em que Jesus
livrou a uma mulher adúltera do
apedrejamento público assegurado
pela então vigente Lei Mosaica do
Velho Testamento, com a célebre e
doce provocação – “O que de vós
outros está sem pecado, seja o
primeiro que a apedreje” (João 8,
7). Madalena foi a Maria mais
próxima de Jesus, nos seus tempos de
ministério público. Acompanhou-o de
perto com seus Apóstolos; seguiu-o
no caminho do Calvário; esteve com
as outras Marias, ao pé do madeiro
da crucifixão; manteve-se junto ao
Sepulcro sagrado provido por José de
Arimatéia; e foi a única, dentre os
seguidores do Mestre, a ser
agraciada com a visão do próprio
Jesus, após a Ressurreição. Há
versões de que a unção de Jesus não
foi feita por Betânia e sim por
Madalena, assim como as Bodas de
Canaã tenham sido a celebração do
noivado entre eles.
Nos Evangelhos apócrifos, os não
contados nos cânones oficiais, aí
incluídos os Manuscritos do Mar
Morto e vários outros pergaminhos,
esquecidos pela Igreja de Roma,
Madalena era íntima de Jesus.
Segundo o Evangelho de Filipe, na
Bíblia de Nag Hammadi, ela era “a
companheira de Jesus”, havendo
inclusive uma referência a beijo na
boca entre eles. Teria se casado com
ele e lhe propiciado dois filhos –
Jesus e José – e uma filha –
Tamar.
Posteriormente emigrou para a
Europa, chegando à França pelo porto
de Marselha. É desta crença a
tradição da Sainte Marie de La Mer e
das catedrais francesas de Notre
Dame.
Madalena morreu em 63 d.C, em La
Sainte Bauve, na Provença, França,
país onde existem vários santuários
tradicionais em homenagem a Santa
Maria Madalena, dentre eles o
depositário de seus restos mortais
na abadia de Saint Maximus, a 48km
de Marselha. A imagem da Madalena
esteve intimamente ligada ao ímpeto
dos Cruzados medievais e foi de
basílicas a ela consagradas que
partiram as Primeiras Cruzadas, num
misto de entusiasmo libertador e
devoção.
Os Evangelhos de São Tomaz e de São
Filipe confirmam Madalena como
mulher de Jesus, mas a necessidade
oficial de demonizar as mulheres,
divinizar o homem Jesus, exaltar a
virgindade de Maria Mãe e manter o
anátema do Pecado Original, fez com
que o Vaticano elegesse o culto à
Virgem Maria, em detrimento das
outras Marias, uma das quais, a
Madalena, era, segundo Filipe,
“símbolo da sabedoria divina” e
depositária maior da confiança de
Jesus na propagação dos seus
ensinamentos.
Jesus II, filho primogênito de
Madalena com o Mestre, da França
passou à Grã Bretanha e inspirou uma
inscrição na parede sul da Capela de
Santa Maria em Glastonbury, que lá
ainda permanece desde o século I –
“Jesus – Maria – Relíquia venerada”-
Jesus filho consagrou a capela a sua
mãe Maria Madalena, em 64 d.C.
É desses tempos primevos e medievais
a identificação de Madalena com o
Santo Graal, o cálice da Última
Ceia, relembrado em secretíssimo
código na célebre tela de Leonardo
da Vinci; e o Santo Graal
identifica-se com o Sangreal, o
Sangue Real da Casa de Davi, à qual
Jesus pertencia, simbolizado no
útero materno da Madalena.
E a Madalena, então, codificada
assim na perpétua mensagem de
humildade e de serviço, permanece lá
no céu, eternamente, como a nos
relembrar dos nossos deveres com a
ética e a humanidade.
Lá estão as Três Marias. Para alguns
incautos, são três Marias quaisquer.
Mas,para os inquiridores das
verdades ocultas, Três Marias com
muita história ... Três Marias com
muita fé ... Três Marias com muitas
lições!...
26.jan.2005