Ao Saltimbanco Carequinha
Andreia Donadon Leal

salta saltimbanco
no palco da ilusão
ressuscita riso de criança,
salta saltimbanco,
dá cambalhotas
e
pernadas
na tristeza;
salta saltimbanco Carequinha
com anjos e pirilampos
- hoje tem marmelada?
- não, Carequinha
!
tem zabumba zoando
num céu de estrelas





AMOR OCULTO
Andreia Donadon Leal

O que é meu amor
senão consumo impetuoso
fogo que queima
e alivia dor,
ilusão hidratada
sobra de abraços e carinhos
pedaços pequenos,
minúsculos pontos desprezados.
Meu amor esquecido
acumula rugas no rosto
pigmenta mãos trêmulas
aumenta passos arrastados.
Meu amor bastardo
suicida amor próprio
extravasa serotonina a toa
por um único beijo.
Meu amor positivo
é tomada queimada
pólos que não ligam;
funciona a base de
energia a tranco
e solavancos
de fios eletrizados.
Meu amor comprimido
se recolhe pequenino
no canto da sala
intimidado
oculto.

****


Noite de Santo Antônio -
Andreia Donadon Leal

A vó Efigênia Cândida da Silva

Um cheiro de terra molhada
afetou nosso faro.
Fomos perseguindo o odor
nas ruas de seixos prateados
postes de luzes foscas
ruas estreitas
casas coladas
sem encontrar pista
e sentido.
Ele persistia
implorava atenção
de cinco crianças
de vistas borradas.
Era cheiro doce
agradável
mas
melancólico.
No rastro:
cheiro de canjica
pipoca doce
cachorro quente...
Festa de Santo Antônio!
Corremos para a barraquinha
ao encontro da senhora
de cabelos cor de prata
vestido estampado de flores amarelas,
olhar sorridente...
Não era vó Efigênia
mexendo a canjica
com a concha de madeira,
era cheiro,
cheiro dela!
Não eram cinco crianças.
Mas vó não estava ali,
virou estrela;
as crianças, adultos.
– Bênção, vó!



HAI-KAIS
Andreia Donadon Leal

Mais fortes que a noite,
vigília de vagalume:
seus olhos de mãe.

***

Meio século
por um dia
com minha mãe.

***

Um louco agitado,
longos cabelos no espaço...
Dança dos bambus.

***

Reclama o sanhaço:
que espinhenta araucária
sem feira de frutas!

***

Galhos, folhas poucas,
parecem lagartas pretas:
maduras amoras.

***
Um fogão à lenha,
tachos de pedra-sabão...
Temperos de mãe.

***
Gotas de orvalho
nas folhas do galho seco;
estação inverno.

***
Amor de verão:
beija-flor no jardim plana;
paixão natural.

***

Flor desabrochada:
rompem-se por entre as pétalas
pérolas de mel.

***
Pêlos preto-chanel
boquinha pintada de cereja:
beleza de gueixa.
***
Tapete de esmeralda
adorno de hana:
estação primavera.

****

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  15.05.2009  

  

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