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ANDA,
VEM DAÍ !
Anda, vem daí, já cai a tarde...
Acorda o teu desejo, vá, convence-o!
E sob um sol que vai mas que inda arde
Faremos coisas loucas em silêncio
Contrariando os campos de secura
Que gemem na paisagem em redor,
Nós criaremos outros... de loucura,
Loucura desmedida, mas de amor!
Anda, vem daí, o tempo é escasso...
Junta teu corpo ao meu, nele me
abraso!
Já olho para o céu, mas nesse espaço
Nó vejo o sol e eu... no mesmo ocaso
Ocaso que este céu ao sol já brinda
E pode até nem estar longe do meu;
Anda, vem daí, quero ter-te ainda
Num acto só de amor... perante o céu
E quando nos rendermos nestes temas,
De amor caindo os corpos num cansaço,
Juntinhos vamos ler nossos poemas
Na mesma melodia... em teu regaço.
Joaquim Sustelo
(em RAIOS DE LUZ)

DAR...
Por vezes uma bruma no olhar
Encobre-me a visão a que me entrego
É quando vem de ti um crepitar
Centelhas que no ar me deixam cego
Adoração que tenho, êxtase louco,
Sem ver além da bruma que se
implanta...
Ah fosse o Céu apenas este pouco
Que dás quando me olhas, força tanta,
E fosse mais o amor que de seguida
Fazemos na penumbra deste quarto,
Eu dar-te ia tudo, minha querida!
O céu, a Terra...
... e mesmo o sol... iria dar-to!
Josaquim Sustelo
(em RAIOS DE LUZ)

ALUCINAÇÃO
Ouvi teus passos no vento
Em movimento suspenso;
Ecos do meu pensamento
Nos trilhos onde me adenso.
Era o som de um movimento
Provindo do espaço imenso;
Era num tempo sem tempo
Prá minha alma um incenso.
E num êxtase profundo
Mergulhei num outro mundo,
Horizontes de lonjura...
Ante o frémito suave
Rodei pela porta a chave
E fui à tua procura.
Joaquim Sustelo
(em RAIOS DE LUZ)

PERDI-ME NA VIELA...
Perdi-me na viela mais escura
Duma cidade em sonhos visitada
Ali onde a tristeza e a amargura
Em pobres corações fazem morada
E vi o fundo olhar que se incendeia
Esse que na carência mostra ódios
Alguém que por tão pouco ali esfaqueia
E dá de duras cenas episódios!
Confesso que tremi de tanto medo
A grosseria... os sem educação...
Depois eu acordei daquele enredo
Para outro mundo... a Civilização
Olhei o homem nobre a quem foi dado
Um berço bem mais rico de ouro ou
prata
Colégios... boas regras... educado...
Mas vejo-o fazer guerra e também mata
Os olhos bem mais doces é verdade
Percebe muito mais de hipocrisia
E vive nos chalés da tal cidade
Sem nunca o comover a periferia
Não lhe entra frio na porta ou na
parede
A mesa às refeições é bem mais farta
Ouve falar da fome... até da sede
Embora do que tem pouco reparta
Mas há em várias coisas semelhança
Na zona nobre ou na viela escura:
Há sempre algum sorriso de criança
Ligado a um olhar cheio de ternura
Seria a da viela um grande homem
Se algum apoio houvesse e condições
Um repartir melhor desses que comem
E esbanjam em supérfluas situações
Ah, quanto tempo levará ainda
Para mudar as coisas na verdade!
Até que a viela venha a ser tão linda
Como outro qualquer ponto da cidade!
Joaquim Sustelo
(em COMO UM RIO...)
PORTUGAL

Biografia
POESIAS
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