Mamadeira de Tequila
Sandra Fayad

Meu Brasil de Norte a Sul
Naquele domingo dourado
De verde, branco e azul,
Da metrópole ao povoado,
Cantava só para mim
Que na terra havia pousado.

Cheguei brilhante e faceira
Cheirando lança-perfume.
Ao invés de mamadeira
Tomei logo uma tequila.
Transformei-me em vaga-lume
Pra brilhar na Escola da Vila.

Vesti fraldas de cetim
Babador de paetês
Chupetinha de alecrim.
E sem perder a altivez,
Caí no samba de sapatim
Pela primeira vez.

Fevereiro, fevereiro!
Fevereiro é o meu mês
Carnaval, carnaval!
Carnaval rima com quê?
Carnaval é Fevereiro
Ah! Fevereiro é o meu mês...


HÁ UM ESPAÇO
Sandra Fayad

Há um espaço
Uma esperança pálida
Um céu cinzento
Um verde musgo.
Há um lamento
Um canto fúnebre
Gemido profano
Um catre no casebre.
Há ainda a certeza
Do erro repetido
Com a mesma sutileza,
Das palavras já ditas
Servidas de sobremesa.
Oradas contritas
Em noitadas tesas.

Há um espaço
Um coração vazio
Uma necessidade.
Há insegurança
E ansiedade...
Há também temor
De que não volte mais
A plena felicidade,
A sensualidade posta à prova,
A paixão desenfreada
Por alguém que esteja
Com o coração vazio,
Temendo que não volte mais
A felicidade...
Esperada...
Ser enroscada
Por um corpo macio
Um beijo ardente
De quem chega vazio
De saciedade...



NADA TE DIREI
Sandra Fayad

Um dia quando eu for embora,
Irei sem entender
Porque não digo a verdade que me dói na alma.
Ao menos em uma poesia,
Dizer-te eu poderia
Que disfarcei e ocultei minhas lágrimas.
Ou talvez eu conte,
No formato de um conto,
Porque só deixo que vejas minha alegria.

Um dia, quem sabe, será tão forte minha dor
Que repentinamente eu desabe,
Surpreendendo-te.
Nem pensa que aceitarei que me faças qualquer favor,
Que me ergas nesses braços que tantas abraçaram.
Cego pela vaidade real,
Acomodado no teu trono virtual,
Indiferente aos meus desejos e ao meu amor.

Não espera que eu me declare nessa hora,
Nem vem falar-me do quanto de fato me amou.
Incrédula e magoada continuarei indo embora
Para castigar-te;
Para que continues me desejando em outros corpos,
Para que brades meu nome ao vento,
E o murmures em sonhos.
Continuarei indo embora...

Irei embora, sim.
Para que tardiamente percebas
O quanto te amei agora.
Não satisfarei teus desejos,
Nem alimentarei tua vaidade.
Impedirei que me cubras de beijos,
Que me vulneres.
Mesmo que minha alma tão sofrida
Daqui me leve para sempre embora,
Nada! Nada te direi por ora.


CHURRASCO NA LAJE
Sandra Fayad

Em meados de setembro,
Professores do Candanguinho
Conheceram a laje da Taty
Em seu novo sobradinho.

Contrataram churrasqueiro,
Que preparou tudo na hora:
Vinagrete, arroz carreteiro,
Mandioca, um pouco de flora,
Banana, limão-de-cheiro,
Refri, cervejinha e cachaça.
E tome carne: assa! assa!

Mestres em tempo integral,
Deixam marcas indeléveis
Na formação do colegial,
Apurando seus sentidos
Para os caminhos do areal.

Ensinam História e Geografia,
Matemática e Redação,
Música e Língua Estrangeira,
Ciências e Ortografia,
Empenhados ainda estão
Na abnegada transmissão
De valores, que acreditam
Existirem nas trilhas invisíveis,
Que do céu ao mar creditam.

Muito séria essa moçada!
Riem pouco em seu tempo.
São jovens bem comportados
No meio de um passatempo.

Belos homens e mulheres
Com a vida a desabrochar.
Incansáveis trabalhadores,
Que nem podem se permitir
Um tempo para suas dores.

Reis, Heróis e Sacerdotes
Loucos, Crápulas e Torturadores
Artistas, Anônimos e Caças-Dotes
Mendigos, Serviçais e Doutores
Mães e Pais Zelosos... ou Ausentes.
Todos têm, em sua história de vida,
Relatos com um professor presente.


DISTÂNCIA ENTRE NÓS

Há uma distância entre tu e eu
Que não se mede em quilômetros
Ou horas que o carro percorreu.
Tão pouco é medida em centímetros
Ou segundos que o atleta venceu.

Entre nós a distância é de valores
Limitada por barreiras invisíveis.
Tem diferentes formas de amores
Palavras há tempos inconcebíveis
Com sons ruidosos e novas cores.

Para ti distante é o tempo futuro.
Meu presente faz parte do passado.
Entre ambos ergueste um muro,
E segues apenas de um lado
Mais veloz, porém menos seguro.


Nos fast foods vais com afã.
Queres bigs, fanta MAIS quarteirões.
Tua linguagem me parece anã,
Mas sigo à risca tuas orientações
E da janela caem tortas de maçã.

Ainda com o carro em movimento
Desembrulhas tudo com facilidade.
Abocanhas pão sovado, regas condimento.
Enquanto percorremos a cidade,
Ainda traças fritas e refri vais sorvendo.

Fascinada com tudo na verdade,
Percebo como é difícil alcançar-te,
Mas mantenho a pose típica da minha idade
E decido ainda aconselhar-te:
-Coma devagar, para melhor digestibilidade.

(Diplomada pela classificação com louvores,
na Categoria "Consagrados", na III Olimpíada Cultural
-500 anos da Língua Portuguesa no Brasil, 1º semestre de 2006).

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  15.06.2009  

  

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