MAIOR DOS DESATINOS
Paulo Mendonça


Eu sou o maior dos soldados,
já fui condecorado o guardião do rei.
Em batalhas sangrentas, jamais tombei,
e executei com a espada valentes condenados.

Eu sou o maior dos gladiadores,
lutei e venci lanceiros e esgrimistas.
Nas arenas do rei, o maior dos artistas,
ofertei com glória o sangue dos perdedores.

Eu sou o maior dos bandidos,
já assaltei e matei, já fui preso e fugi.
Já roubei moças, muitos amores fingi,
e clemenciei com a morte, valentes maridos.

No entanto...

Eu sou o maior dos desatinos,
"louco pelos teus encantos, preso
e aviltado pelo teu desprezo",
me curvo ao maior dos peregrinos.

E eu sou o maior dos andarilhos,
por este amor acorrentado aos pés,
caio, me esfolo, me junto aos fiéis,
no deus lhe pague dos maltrapilhos.

E neste descarne desarmado,
no duelo parco do destino,
parto ao mundo em desatino.
Eu sou o mais bravo soldado,
sou o mais valente gladiador,
eu sou o mais cruel bandido,
sou o desatino do amor.



EVA MARIA
Paulo Mendonça


Por onde anda a Eva? Maria!
Parida das entranhas do universo,
talhada em prosa e verso,
das mãos de Deus, divina alquimia.

Por onde tu andas, tão à toa,
no altar da hipocrisia, embutida,
pois te chamaram, um dia, pervertida,
e esqueceste de ti, ó leoa.

Por onde andas em pilhéria,
pela costela de Adão, submissa,
obrigações, deveres e a missa,
no deus te pague por esta miséria.

Por que não gritas: "sou o paraíso",
que um dia concedeu ao Adão
o direito de ser um João,
da corte ao seu fêmea, Narciso.

Enfim, por onde andam, as Veras,
as Paulas, Cristinas e Adrianas,
Josefinas, Reginas e Anas?
Todas Marias... Evas quimeras...

Evas das entranhas parideiras;
altares do amor... masmorras da dor...

Marias, estranhas prisioneiras,
dos Joãos, dos Joãozinhos, do pudor..


POR INSTINTO
Paulo Mendonça


Não tardarás ao meu abrigo,
estarás em casa, venha, te juro.
Serei teu agasalho, serei tua fome,
serei tua comida, estarás seguro.

Não tardarás ao meu acalanto,
estarás no colo, no meu embalar.
Sentirás menino, um tanto indefeso,
te farei dengoso com o meu afagar.

Não tardarás as minhas ânsias,
das minhas entranhas, do meu delirar.
Serei teu leito, serei teu vício,
serei tua égua e o teu cavalgar.

Não tardarás a sentir-me molhada
como num banho a beira do mar.
Sentirás nas ondas a espuma da praia,
e o salgado quente do meu transpirar.

E aos poucos, não tardarás de mim,
a provar da dor que me rasga o ventre
que te suga a alma, que me faz em gritos,
que te leva aos céus, que me faz dormente...

E devagarzinho, com olhar criança,
com meus afagos, não tardarás sorrindo.
E com meu acalanto, como por um encanto,
devagarzinho, não tardarás dormindo



ENCONTRO
Paulo Mendonça


Chego...
A porta entreaberta
como me esperasse.
Entro,
tudo sombrio lá dentro...
O luar invade a sala,
pela cortina de gaze,
sombreando teu corpo,
no assoalho reluzente.

Fico todo dormente...

E olhos nos olhos,
quantas perguntas fazemos?
E não emitimos uma só palavra...
Pois tudo já sabemos...

Sentamos num tapete felpudo...
E nossos olhos nos mantêm calados,
pois já falam tudo...

E ali deitamos juntos...

E sorrimos
das doçuras que tanto imaginamos...
E quanto gargalhamos
das loucuras que tanto ansiamos...

E logo silenciamos...

E como esperávamos,
aos poucos, tudo vai acontecendo.

Uma névoa sombria invade a sala,
escurecendo nossos olhos.
E como cegos
nossos toques, nossos tatos,
nossos gostos e olfatos
superam nossas previsões...

E o suor salgado nos batiza
naquele tapete felpudo.
Pedra batismal
dos nossos anseios e da nossa fome...
E Deus, presente, nos alimenta
com um amor louco, num divino ritual
que nos leva lá no céu,
num céu em nós...



AMOR MAIOR
Paulo Mendonça


O quanto parti em desatino,
Vulnerável do instinto.
O quanto aprontei por aí,
Vulnerável do impulso.
O quanto amei tantas vezes,
Vulnerável do Eros.
O quanto poeta tornei-me,
Vulnerável do sentimento.
O quanto sofri e por tantas,
Vulnerável do amor.
O quanto às fiz sofrerem,
Vulnerável do ego.
O quanto me tornei perdido,
Vulnerável da vida.
O quanto me tornei triste,
Vulnerável do desalento.
E o quanto me tornei só,
E vulnerável.

Vulnerável acudido por ti,
Fecunda Eva,
Cujas sementes um dia plantei,
Fecundo útero,
E que fizeste germinar em frutos,
Fecunda mãe,
Tomada de sua plenitude,
Fecunda dama,
No tempo que agrisalhou-nos juntos
Fecunda senhora,
E que o Eros, a Phillia e o Ágape
Divina Musa,
Resgatou-nos com o maior dos amores,
Querida Mulher...

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  16.04.2009  

  

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