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Lírio Amoroso
Inês Marucci
Não me deixes ao abandono sozinha
jamais,
qu'esta fagulha ensolarada é grande
demais
a toda esta ânsia louca que a tua se
somou,
mais aflita me fez e com o amor
comungou!
Todo meu ser perfumou e essência
imantou,
a ponto de sermos sombra única de dois
sóis
ricos, distantes, fincados por eternos
anzóis,
que por nada apagaram outrora nem
depois!
Amor, não me faças da solitude
companheira
após tanto esperar desde a remota
primavera,
quand'uma última lágrima agridoce
escorrida
meu amor fecundou e brotou junto à
ermida!
Oh,imensidão de águas turquesadas
batendo,
cujo murmurar eloqüente deveras me
assusta
feito sentença inexorável no palor do
mundo,
oco, suplicante de ti, sem o amor que
resista!
Meus pensamentos constelam a noite
afora
em tua busca com mesmo candor qu’outrora
inflamava meu peito esperançado e
doente,
dulcíssima candeia num pulsar
permanente!
Teus cheiros no raiar da aurora! Oh,
delírio!
ensandecendo tantos vazios cheios de
mim,
cato os meus cacos transfigurados num
lírio
perene, meigo, doce e invento meu
jardim!
Tão robusto é o meu amor que nele
cabem
todos os teus temores lesionados no
tempo,
excessivo fica e lota o mais longínquo
além
da pureza e da placidez oriundas d'
Olimpo!

Soneto das
doçuras
Inês Marucci
Quando desvelares os meus sonhos
velados,
desmatando matas sombrias, rosais te
farão
um fascinante leito voador de amor e
paixão,
vou te esperar fêmea de mil mãos de
sedução!
À rédea curta, não fugiremos das
cavalgadas
e nossos corpos suados, galhos viris
torcidos,
o côncavo e o convexo sutilmente
encaixados
balé humano de águas quentes que se
erguem
nos trejeitos e gemidos, anseios que
explodem,
e nos ávidos toques de um querer se
perderam
ensandecidos e à louca paixão se
entregaram!
E com os teus olhos de mar dengoso,
astutos,
adivinharás minhas entranhas mais
ardentes,
ondulantes doçuras sigilosas e tão
odorantes!

A caminho
das estrelas
Inês Marucci
Dissolvo-me no silêncio que é canção,
tal gota plácida que o luar desprende,
enquanto multidão se estatela ao chão
de astros errantes dos quais descende!
Parto dentro de mim ao longo destino,
sem mais voltar, à quietude m’entrego,
coroando-me nesta noitada um sereno
das magas raias longínquas sem pego!
Na prece ama do silêncio meu segredo
em mirras puras perfuma e se dissolve,
rasga a cadeia que o tinha acorrentado
e ao cosmo em flor oferece vôo de ave!
Voa e penetra sem cessar por toda
parte
minh’ânsia secreta que de som se
veste,
a seguir as melancólicas estrelas
d’arte,
que constelam e me silenciam a mente!
De estrela em estrela tremulo e
oscilo,
a Terra não vejo, dentro de mim o céu,
que apalpo no palor do leve crepúsculo
interpretativo do mago jornadear meu!
A alma suspira e na luz dorme
contrita,
quando um clarão nervoso a seqüestra,
na paz do cântico amoroso ela palpita!
Balbucia risos! a alma gêmea encontra!

Epírito da
Mata
Inês Marucci
desenham as peles da mata orvalhada
na nua pele de minha alma selvagem,
embalada à peregrinação destemida,
raiando os rumos no sulco da aragem!
A mata tem doce espírito tão avoengo,
encarna meu Eu interior dos lamentos,
dos murmúrios sacros, oh doce chamego
d’um cantar inacabado nos pensamentos!
D’árvore à regueira do rio a alma
saltita
e lépida se amarra aos fios de
esperança,
em anelos celestes meu coração
desperta,
cheio do cheiro agreste de cada
andança!
São flechas o meu pensar alvo
ensaiando
a eternidade, pressentindo rumo da
seta
para regressar toda nudez ao meu bando
das mirras raras, do mar doirado
violeta!
Logo ali, longe tão perto, não mais
serei
personagem da tela dos sonhos amáveis,
que do espírito mágico das matas
roubei,
como réu oculto nas passagens
incríveis!
Tateando vão estes pés calejando sons
e adocicando de emoção meu jornadear
exultante em risos e choros,tantos
dons
quanto possa desta selva minha
florear!
Corto espaços, vôo, adormeço e cismo,
se sonho é miragem ou do céu a chave.
Sonhar é uma sina que jamais lastimo,
a alma minha sinfonia etérea já ouve!

Alma em
regresso
Inês Marucci
Minh’alma penou perdida sem universo,
nas asas da ventania rasgando o
espaço,
no chão negro, tão denso quão nebuloso
tudo se esfriando, implorou um abraço!
Reluzindo,dispersas estrelas a
ignoraram,
desentendendo seu ar angelical e
sereno,
tudo se fazia breu depois de estar
ameno,
mas ela não se perdeu, anjos a
conduziam!
Dentre as melodias iluminadas à
candeia
e feliz minh’alma exulta,regressou ao
lar.
Sopro miraculoso constela cad’Eu
estelar,
enquanto a terra é um só sol que
clareia!
Noites, dias, céus e terra de minha
alma,
o futuro me apalpa por dentro e por
fora,
pois s’existo e todo o universo me
chama,
sou alma de flor que raia doce
primavera!

A Luz de
dentro
Inês Marucci
Quanto mais longe jornadeio, fugindo
de mim,
mais me encontro, quantas almas me
povoam!
quando as leio nas pessoas, ninguém
sou enfim,
momentos vivi, muitos sonhos me
modelaram.
Página incompleta e sempre sendo
desenhada,
diuturnamente inconclusa, vou me
dissolvendo
na imagem de todos que enfeitam a
caminhada
muito me burilando.Que formas vou
tomando?
Não sei.Sei que sonho,cismo,penso e
meditando
me indignou, tal perfeita filha de
Deus que sou,
neste indefeso jornadear minha vida
recheando,
ter uma alma tão frágil, que às
amarras se doou!
Sinto todos que vejo e me torno eles,
não eu,
nenhuma intimidade me diferencia no
Mundo,
onde látegos nos derrubou e a beleza
recolheu,
e continuo a sonhar que não existe o
imundo!,
Até quando encaro o poder nefasto das
ilusões,
fazendo-me ser o que penso ser, não o
que sou:
genuína alma de Deus, com heranças e
canções,
na força que tudo pode, grand’amor me
tocou!
Achei o tirano de mim mesma no meu Eu
físico
que do Eu espiritual sempre mais se
separava.
Soltei-o. Libérrima ficando o arredor
é branco;
à alma feita de heranças qualquer mal
é fraco!
O manso jornadear me modificou de
repente,
aclarando que filha da Luz sempre fui
e serei
e não imitarei parceiros da prisão
inexistente,
criada na imaginação doente. Sim,
exultarei!
Se nasci livre feito as águias do
espaço infindo,
como a luz e vida e o próprio espírito
de Deus,
que um dia fará meu ego também um
libertado.
Meu canto é liberdade em todos os dias
meus!

Biografia
POESIAS
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