Matematicamente Falando...
Marina Fairth


Nasci como todos nascem - nu.
Mas, num lugar onde poucos nasceram...
Até aí nada de especial, todos nascem em algum lugar.
Sou apenas mais um. Ou serei apenas um decimal?
Sim, pois eu sou tão pouco, há milhões iguais a mim
Que eu acho que não dá para ser um número inteiro.

Cresci como todo mundo - sem sentir.
Sem medir minha vida pelos centímetros
Chorei sem contar as lágrimas
E sorri com os trinta e dois dentes.

Fui, sou, não sei se serei...
Ou será que sou e não fui?
Deixando de lado esta estória de "ser ou não ser"
(Que, aliás, não é minha)
E vamos ao que interessa:
...O que é mesmo que interessa?
Ah! Sim!

Envelheci sem somar os anos, nem subtrair os dias.
Só contei as horas em que fui feliz
Foram poucas... Mas eu as vivi!
Acho mesmo que, ao morrer,
ninguém vai somar meus sonhos
nem dividir opiniões sobre o que multipliquei
ou sobre o que deixei de resto.
Neste momento de Prova dos Nove
Não serei nem inteiro, nem mais um. Menos um?
Que loucura! Não! Loucos são aqueles
Que se sentem como o número UM
Que pensam serem inteiros.

Nada é inteiro!
Todos somos pequenas frações que se multiplicam,
se dividem e que ao final se somam
num único algarismo - INDISSOLÚVEL.
ENQUANTO NOS SENTIRMOS INTEIROS
SEREMOS PEQUENAS FRAÇÕES -
FRÁGEIS E SOLÚVEIS...

Do livro "Sentimentos" - Marina Fairth


Momentos


Momentos de alegria
Tristeza, agonia
De medo e coragem
De sonho - miragem
Enlevo e realidade...

Momentos de ação, de encanto, emoção
De nuvem sombria
negação, sabedoria
de acertos e erros fatais...

Momentos de vida,
de intensa euforia
de graça, risonhos
de choro, tristonhos
de espera interminável...

Testam a paciência
Instigam à ciência
Aguardando sinais
de novos finais
felizes ou não...

Momentos de introspecção
Onde fala o coração
(O Mestre e amigo)
Que traz sempre consigo
mensagens cheias de luz!
Que envolvem as trevas
E as faz suas servas
dominam a razão...

Momentos preciosos
de encantamento
de puro tormento,
doença de amor...
Perdem-se os sentidos,
confundem-se os gemidos
da alma e do corpo,
e um desconforto
cheio de prazer...

Momentos de guerra
que a lucidez encerra
loucas batalhas internas - luta pra sobreviver
o ser que busca a si mesmo
em sua própria derrota...

Nasce o novo, morre o velho...
Nasce a criança gerada
da luta outrora travada
E nasce para ser guerreira
Ser a mágica maneira
de enobrecer o maculado coração...
Que, enfim, cansado
Renova-se pelo calor
de um novo sopro de vida,
de vida chamada AMOR...

Momentos, muitos momentos...
Apenas coisas que passam
Às vezes despercebidas
que, às vezes, causam feridas
que demoram a cicatrizar...
Às vezes, marcam com fogo
Resultado de um jogo
que se joga eternamente
Só se pode ir em frente
E desistir - jamais!

Pode haver até recuo
Ser em solo ou em duo
Não importa, é dar-se um tempo
para aguardar outro vento
que remova as muitas cinzas
para novo fogo acender...
de vida...morte...renascimento
que geram o movimento
da evolução de um ser.

Do livro "Sentimentos" de
Marina Fairth


ABALOS


Como incomodou aos fracos
a força dos "Mestres da Vida"
aqueles que não buscavam a glória
não buscavam notoriedade,
riqueza ou propriedade
fossem físicas ou psíquicas!

Transtornados os "sábios do mundo"
jogaram seus jogos imundos
suas armadilhas armaram,
tanto se deliciaram
tentando o Amor destruir.

Como incomoda ainda agora
a palavra, a memória
a força oculta e latente,
e o veneno da serpente
envenena a própria Eva
que, mortal, Adão carrega
sendo dois em uma só carne.

Heróis sempre morrem
e de seus sangues escorrem
abençoado líquido de Amor...
Amor pela humanidade
que os rejeita furiosamente
que os renega, que os aflige
que os mata!
E, depois, sentindo-se grata,
faz reverência às suas vítimas.

Consome assim a própria história
o homem em sua tola prepotência
quando luta pela vida
que pela morte é vencida.
e nada fica, nada permanece...
Das glórias e poderes se esquece.

O Amor que venceu o mundo
ficou gravado no fundo
da alma de um sonhador
que busca outra realidade
onde conflito e dualidade
sejam ilusões perdidas,
consumidas sem piedade
pelo fogo da eternidade,
pela dor de renascer!

Do livro "Sentimentos" de
Marina Fairth



Falsa Solidão

Sentimento que anula e afoga os sonhos
Faz dissolver-se a esperança e o bem-estar
Difícil se torna toda e qualquer atitude
De dar meia-volta ou de amar...

Que sensação de abandono da qual se reveste o ser...
Pensando não ser verdade esse tal de "vir-a-ser."

E perde da meada o fio
Sente fome, sente frio
Emaranha-se em sua teia, debate-se, luta e agoniza
Prevê assim seu falecimento
sentindo que neste momento,
que só a si próprio pertence,
o sentimento é mais forte!
Essa angústia um dia vence?

Vá embora, falsa ilusão!
Não me perturbes a mente
não confundas assim o crente
nas coisas do Coração!
Não mintas, dizendo: - É tarde, não há mais tempo agora,
mesmo indo mundo afora, estarei sempre presente
seguirei teus passos, não dando trégua alguma,
consolo ou mesmo alívio
não encontrarás em parte alguma!

Não creio em tuas falsas palavras
Amargas, tristes, vazias
pois, já tivemos muitos dias
em solidão aparente
quando a alma se ressente
da falta do Amo e Senhor
que espera tranqüilo, muito à vontade,
que a ilusão que o ser invade
se destrua por si mesma...
Irreal é sua face, é tola, é pura anarquia
que tenta fazer o jogo da dor, sarcasmo, agonia.
Mas se desfaz ante o belo, o simples e a rebeldia
de quem cala, e assim aguarda
que sua ação se desfaça...
E a solidão - sem graça - dá lugar à paz, então.

Marina Fairth



Presságio

Deus! Não me abandone!
Tenho sede, tenho fome!
Tenho ânsias de fragmentar-me
de entregar-me...a um não-sei-quê!

Deus! A alma está aflita
todo o meu ser debate-se e grita:
-Quem sou eu? Será que existo?
Não quero morrer! - Resisto.
Não quero perder a vontade
nem deixar a realidade
tão repleta de ilusões!

Deus! Ajuda esta agonizante
a entregar seu mundo, esta quimera
e entrar com coragem no instante
no qual reina a primavera
no qual o centro da esfera
torna-se porto, salvação!

Deus! Devolvo-te a ternura
e a minha doce loucura
de viver à Tua procura
e nela sentir prazer
de ser eterna caminhante,
aquela que Te deseja
e que em sonhos se entrega a Ti.


Mestre! Ensina-me o meio
de tomar a estrada certa
a fazer a descoberta
da Tua Presença em mim,
do quê és - princípio e fim...
De que tudo é só o começo,
de que tudo tem seu preço,
e que a vida é só presságio
do que realmente és,
do que realmente sou.

Marina Fairth

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  14.04.2009  

  

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