Folha Em Branco
Rosa MagalyGuimarães Lucas
- Eire

Ao nascer, Deus me deu uma folha em branco.
Para que minha vida eu descrevesse
Com recomendação de ser feliz,
E a outrem tentar fazer assim.
De início foi ela um sorriso franco,
E pouco a pouco como se escrevesse,
Traços de todas cores sempre em giz,
Mas doeu muito quando usei carmim.

Em menina, garatuja de criança,
Desenhos infantis, nuvens, sol, luar,
De luz, de flores e de alegria,
De amizade e de amor em minha estrada...
Mas em nada indicava a semelhança
Do que eu esperava na vida encontrar;
Quem sabe ao caminhar topasse um dia,
Co’um grande amor e então apaixonada,

Desenhasse eu na folha corações
Por pequeninas setas trespassados,
Um par de olhos negros, um peito amigo,
Mãos carinhosas além de voz terna?
Foi tudo o que sonhei, mas os senões,
Foram maiores do que os desejados...
De cambulhada arrastaram o abrigo,
E me deixaram em tristeza eterna.

O tempo foi passando, a idade vindo,
Hoje ‘inda sou avó, perdi um filho,
Júbilo e tristeza juntos persistem,
Provando a coexistência dos opostos...
Final de vida em paz sempre é benvindo
Quando envolvido pelo intenso brilho
Dos bens maiores que em nós ‘inda existem:
Amizade, fé, amor, ternura, expostos.

A folha branca já está quase cheia!
De vez em quando aproveitando o ensejo
Revejo a minha infância e adolescência
Em meus traços de cor e fantasia...
E eu me livro de toda e qualquer peia
Que me prenda e me fira... É que almejo,

Ficar nessa doce reminiscência
Olhando a folha que a isso me guia...
Das coisas tristes não quero falar!
Há tantas coisas que a vida me deu!
Tanto amor, tanta luz, tanta harmonia,
No perfume e beleza de mil flores,
Matas, a lua e o sol, canto do mar...
Bendito seja aquele que viveu
Tal maravilha e fez a Antologia
De suas quimeras, belezas, e amores.

Agora a folha branca está esperando
Que Deus lhe determine o “Gran-Finale”,
Da ópera clássica, bufa e romântica,
De um viver lindo e tão variado
Cujo nome será “Esperançando”.
Lá estarei eu envolvida em meu chalé,
Com retalhos da vida em minha mântica,
A recordar um viver abençoado.

Vocabulario
Mântica: saco pequeno; alforge; bornal


“MINHA UTOPIA”
Rosa Magaly Guimarães Lucas
- Eire

O que eu quero da vida é muito pouco...
É o direito de um livre caminhar,
De rir e de chorar, o ouvido mouco,
Ao que me vá ferir... Me maltratar...

Direito de viver um amor louco,
Que me faça ter asas pra voar,
Que as ofensas me cheguem como um rouco
Miado... que não me possam perturbar...

Quero viver a minha fantasia
De ser por ele amada... De o amar,
De ver no mundo um pouco de harmonia,

E ver a liberdade enfim raiar!
É pouco e impossível... É uma utopia...
O que eu quero não vai se realizar...

Jacaraípe, Serra, Espírito Santo, 28/07/2006.


“NOSSO JURAMENTO”
Rosa Magaly Guimarães Lucas
- Eire

Foi assim na noite do nosso juramento!
Não teve fim nossa linda história de amor...
Perdura ainda nítida em meu pensamento,
Quando ouço tuas juras e sinto teu calor...

Cumprido, o prometido foi... Tal sentimento
O nosso coração faz bater com ardor,
Enquanto a memória traz de volta o momento
Em que disseste: “Eu te amo... és minha luz, és cor!”.

E desde então nós dois seguimos pela estrada
Que nos mantém juntinho,s e a bem da verdade,
Tu a me amares sempre, e eu por ti apaixonada,

Dia a dia ao amor dando continuidade,
Seja a vida a presente, a futura, ou a passada,
Pertencendo um ao outro pela Eternidade!

Jacaraípe, Serra, Espírito Santo, Brasil, 08/09/2006.


“ATENDE-ME, POR FAVOR...!”
Rosa Magaly Guimarães Lucas
- Eire

É triste se perder alguém querido!
Mas fere a alma também se a sua poesia
Sem lhe deixar seu rumo percorrido
Sai por aí... Leva a sua alegria...

Meu Deus, ainda não tinha percebido,
A dor que me provoca a nostalgia
Por ver o meu trabalho assim perdido...
Deixa--me árida... Sem estesia...

Seja quem for, por favor, me respeite,
O tempo que eu tenho é tão pequenino,
E o poetar é meu grande deleite!
Não consigo entender... Eu não atino
Com a má vontade sua... Ouve...Aceite...
Devolve o poema que é pra mim divino!

Jacaraípe, Serra, Espírito Santo, Brasil, 09/09/2006.

Soneto Ao Vento
Rosa Magaly Guimarães Lucas
- Eire


Vento da tarde morno e preguiçoso,
Que varre a praia e a areia faz voar,
Vento moleque, ventinho tinhoso,
Que em meus cabelos vem se embaraçar...

Vento que beijas faces , carinhoso,
Ou encapelas as ondas do mar...
Vento que podes ser auspicioso
Ou coisas tristes podes carregar...

Amo-te vento sejas Sul ou Norte,
Amo o teu som ao passar pelas frestas,
Amo-te quando brisa, ou quando forte

Fazes bailar as folhas das florestas...
Vento que traz a vida ou traz a morte,
E acompanhas teu canto com celestas.

Jacaraípe, Serra, Espírito Santo, 26/04/2006.


NOSSOS FANTASMAS...”
Rosa Magaly Guimarães Lucas
- Eire
( Em uma tarde de outono, na varanda)

Foi de repente! Assim! Eles chegaram,
Tomando posse de gente e lugar...
Havia sons de risos... E falaram,
Contando “causos” sempre a gargalhar...

E... Curioso... Os assuntos mudaram...
Violências, roubalheiras, nem pensar...
As tardes de antigamente voltaram,
E a alegria com elas a espocar...

Eu vi olhos azuis, verdes, doirados,
Do sogro, tios, cunhados, sobrinhos,
Com lampejos de luz, e debochados...

Falaram de caçadas, embriagados,
Por uma sintonia de carinhos,
Depois se foram... E ficamos calados...


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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  09.06.2009  

  

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