ENSINAR PARA PERDER A VIDA
Edmir Carvalho Bezerra

Em cada esquina, quando o dia vai findando, um grupo se reúne para as conversas triviais e as ações que constroem o nada. Nas portas das casas do bairro suburbano, já não sentam suas senhoras a tricotar falas amigáveis. Cada porta é um anúncio: vende-se ISSO, vende-se AQUILO, corta-se cabelo, manicure, pedicure, vende-se gelo, vende-se ovos, vende-se água, vende-se...

A professora, quase aposentada, resolveu passar em revista os anos de profissão. Por ali, quase todos foram seus alunos. As unhistas, cabeleireiras, cambistas do jogo do bicho, vendedores de coisas, os das esquinas e outros que desapareceram no mundo.

O quadro é de grande desarrumação. A mestra põe os olhos nesse nada construído para medir o quanto os anos de labuta (não) contribuíram para arrumar essas vidas que a todo segundo usam a língua do mesmo modo que usam o ar que respiram.

Frustra-se diante da ineficiência de tudo que fez com amor e lhe dói fundo saber que esse amor não foi suficiente. Lá estão as miseráveis vidas gastas pela tentativa de sobreviver mais um dia.

Revisão de vida dolorosa essa. Mas já é outro dia, abre o jornal dominical, lá estão todas as palavras, as notícias descartáveis, as poucas verdades, as muitas mentiras. Depara-se com a foto do menor, tarja preta sobre os olhos, o corpo, abaixo as iniciais, a notícia do crime. Um aluno seu, cujo muro alto da escola não impediu que alçasse o vôo, não para cima, para o alto, mas para baixo, um vôo sem asas, terminado em queda fatal.

Melhor sair para um passeio sem cobiçar os olhos em paisagem nenhuma, em ninguém. Mas tudo é intranqüilidade. O domingo está nublado, os anos em sala de aula lhe cortam por dentro, despedaçando-lhe os verbos mais elegantes, o fazer, sentir, ser, dizer, amar. As portas, as placas, as esquinas estorvam-lhe a mente. Um turbilhão, um redemoinho de vento, um silêncio, um desespero e nenhum fio de esperança.

Um carneirinho estranho fala na tv que precisamos de armas em casa. O mundo anda perigoso. Não precisamos mais de professores, de professoras. Então?! chegamos tarde demais?

Chove sobre Belém,
novamente fecho meus olhos.
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HOJE ESTOU MUDO (retrato de certos dias)
Edmir Carvalho Bezerra

Hoje estou quase mudo. Num daqueles dias em que meus passos são para trás. Não sinto dores nenhuma, mas a tristeza aguda que vezes em vezes teima em me acompanhar, sentou-se ao meu lado. O dia não me fez nenhum sorriso de luz, nem de brisa, ando desde o amanhecer com essa dificuldade de respirar, ando mesmo desarmado. Confesso que são essas as horas em que tenho vontade de devolver minha fé.

Há dentro de mim uma sensação de vazio me devorando, querendo me roubar o que tantas vezes entreguei a esse vilão invisível que me adora. Hoje tenho lágrimas nos olhos, hoje estou me escondendo, estou com medo das alturas, da rua. Muitas ou poucas luzes me incomodariam se por aqui estivessem.

Sofro de indelicadezas que não me fizeram. Nenhuma visita me agradaria, nenhum amigo, hoje me fará falta. Não é dor essa dor invisível, esse martírio inglorioso que se precipita sobre mim.

Faço tantas perguntas. Quem me lançou desse jeito, esse trêmulo pavor de um minúsculo som, de um ranger de janelas? Como veio parar no meu cérebro essa sensação de que daqui a poucos instantes algo terrível vai acontecer?

Meu peito se oprime, tenho vontade agora de segurar o meu coração, protegê-lo com minhas mãos. Verdade, eu não minto. Eu quero segurar meu coração.

Não falo aqui de uma saudade, de um amor perdido ou de uma paixão. Falo desse mistério que me habita, zomba de mim, me entristece tanto que me empalidece. Quero sentar num canto, abraçar as pernas, esconder meu rosto. eu não queria escrever hoje, eu não queria...

O dia hoje foi doloroso, não pela dor física que agora não sinto, mas por esse inexplicável estranho que dentro de mim luta comigo e que, como hoje, me venceu.

Hoje estou sem razões
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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  19.05.2009  

  

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