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FIO DE
PRUMO
Carmo Vasconcelos
Cansei de buscar o Santo Graal
Descortinar teu ser impenetrável
Intento tanto quanto inviável
Como calar esta paixão fatal
Não me assustam os tropicais calores
Nem vendavais receio enfrentar
Só muros de gelo pra me gelar
No sangue meus ímpetos e ardores
É a palavra morta em tua boca
Que me deixa perdida como louca
Tornada viajante sem ter rumo
Falta-me a bitola, o fio de prumo
Que nivele a paixão pra não ser pouca
Nem demais para não soar a oca
Carmo Vasconcelos
In E-Book "Sonetos Escolhidos"

MIL VEZES
Mil vezes nascerei criança pura
Nua de memórias e de linhos
E às cegas plos abrolhos dos caminhos
De novo me farei à estrada escura
Mil vezes feita verme a impureza
Sugará de minh'alma a perfeição
Até que certo dia um clarão
Me faça vislumbrar sua torpeza
Mil vezes travarei luta obscura
Contra a vil impureza traiçoeira
Que na carne me tenta e me tortura
Só quando vir do corpo a impostura
Alcançarei a estrada derradeira
E pousarei sem volta… na Altura
Carmo Vasconcelos
In E-Book "Sonetos Escolhidos"

RECOLHIMENTO
Hoje sou aquela… a que sepulta
Palmas, louvores, risos, ironias
Quero santos ofícios, elegias
Abrir a sacra catedral oculta
Quero sinos tocando a rebate
Eco de meus lamuriosos ais
Quero beber as mágoas dos mortais
Alimentar a dor que em mim se abate
Ser surda a qualquer hino de alegria
Ajoelhar em réquiem de finados
Dar campa aos meus amantes desamados
Carpir a vida breve e fugidia
Pôr luto pela morta felicidade
E recolher-me em ti… nesta saudade
Carmo Vasconcelos
In E-Book "Sonetos Escolhidos"

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