HÁ DENTRO DE NÓS
Ângelo Rodrigues

Há dentro de nós
Outros universos
Que nos dão estranha força;
Estranho poder;
Estranho espanto.
Há dentro de nós
Uma frustração de Ser.
Há dentro de nós
Uma vontade de tudo.
Há dentro de nós
Grossas amarras
Que nos prendem
A esgotadas e caquéticas
Transcendências.
Há dentro de nós
Um grito feito lâmina
Que anseia cortar
De uma só vez
As palavras da nossa insignificância.
Ainda somos prisioneiros de nós.
Quando nos julgamos libertos,
Afogamo-nos em demagógicas
Orgias temperamentais.
Somos falhados aprendizes de Vida.
Lavamos no Tempo
Repetidas frustrações
E devoramos em tumultuoso silêncio
A raiva que nasce
Nos sentidos.
Até à descoberta de uma “nova” verdade,
Repousamos no plano vertical
E adormecemos lentamente
Acordando mais tarde
Na singularidade
Troglodítica da existência.

Existir é um acidente da humanidade.
Existir é o princípio de um ir-sendo
Na longa viagem em demanda de nós
Que somos em pedaços,
Deuses
Em estado semi-mortal de vida latente.

in Eu, O Ser e a Dúvida,
Edições Orpheu, 1989



BEBER MAIS UM SONHO
Ângelo Rodrigues

Basta por agora
Uma garrafa de vinho
Embriagar-me sozinho
E adormecer a hora fútil

Sentir a mãe loucura
Afogar este tédio esta amargura
Fome de mudança
Labirinto que procura

Gritar o novo tempo
Liquidar o herói maldito
Libertar o pensamento
Das garras do novo mito

Beber mais um sonho
Embriagar-me de fantasia
Comer o monstro medonho
O rei da hipocrisia

Partir e não chegar
Que o caminho é infinito
Inquieta-me esta viagem
Abarrotada de conflito


in Da Ressurreição do Espanto,
Ed. Minerva, 1998

PERFUME
Ângelo Rodrigues


Vagueio
clandestino
pelas sombras
perfumadas
do desejo
em busca
da Última-barreira
que está algures
para além
dos precipícios olfactivos
da Rosa.

Descanso.
Sento-me em cima
da felicidade
de um pássaro bizarro.
Estou alto e tenho medo,
medo de não permanecer
eterna-mente alto.

Descarrego do olhar
a luz de todas as manhãs do mundo.
Encosto a Alma
à cor azul do céu e do mar.
Fecho sono-lenta-mente os olhos.
Actuam em mim,
como que por encanto,
mil sentidos virgens.
Consigo cheirar
o perfume intenso,
orgástico e arrebatador
da Rosa-Esotérica.
Sei agora
que estou perto da
Última-Barreira.

in um bailado no centro da Alma

 

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Publicado: 02.09.2006 Última atualização:  21.05.2012  

  

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