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QUANDO OLHO PARA MIM NÃO ME PERCEBO
ÁLVARO DE CAMPOS ( F.P.)
Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
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APOLO E AS NOVE MUSAS DISCANTANDO
Luiz Vaz de Camões
Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:
«Ditoso seja o dia e hora, quando
tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar-se em seu desejo traspassando»...
Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corrria
tão ligeira que quase era invisível.
Converteu-se-me em noite o claro dia;
e, se algüa esperança me ficou,
será de maior mal, se for possível.
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A VIDA
João de Deus
Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.
Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.
Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!
Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram ...
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SONETO DA SEPARAÇÃO
Vinicius de Moraes
De repente do riso fez-se pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos defez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se do triste o que se fez amante
e do sozinho o que se fez contente.
Fez do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
GÉNESE
José Régio
Sozinho, à margem do caminho, um verme.
Passam, repassam bandos pela estrada.
E alguns vão vê-lo... ou antes, vêm ver-me,
Com um dó que dói como uma chicotada!
Passam, repassam bandos pela estrada...
Levantam pó que desce a envolver-me.
E outros, por animarem a jornada,
Jogam à bola com minh'alma inerme.
Passam. E à margem do caminho, triste,
Respiro o pó que inda no ar persiste...
Cai das estrelas o silêncio, o espanto.
Qualquer coisa de absurdo me sufoca.
Maior do que eu, sobe-me a alma à boca.
Falta-me o ar, incho de angústia... -- E canto.
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OS VERSOS QUE TE FIZ
Florbela espanca
Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.
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O AUTOR AOS SEUS VERSOS
Bocage
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:
Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.
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