Recentemente, a Folha de S.Paulo publicou uma
entrevista (seguida de matéria bastante reacionária) com
Maria Schneider, em que a atriz atribui os vários
problemas de sua vida pessoal - basicamente: drogas
demais e gordura demais - à sua inocência perdida
durante as filmagens de "O último tango". Não quero -
nem tenho informações suficientes - para entrar no
mérito da questão, mas o simples fato da atriz
ressaltar, mais uma vez, os aspectos sexuais do filme
certamente contribui para reforçar essa falsa imagem de
"O último tango em Paris" como um filme erótico. Tá na
hora de colocar as coisas nos seus devidos lugares (e
nem precisa manteiga).
"O
último tango em Paris" não é um filme erótico. É, como
todos os filmes intimistas de Bertolucci, uma tentativa
de falar abertamente sobre coisas que a sociedade
prefere ver trancadas a sete chaves. Dois desconhecidos
encontram-se num apartamento vazio e, sem dizerem os
nomes, conversam, transam, brigam e procuram um sentido
para suas vidas. Ele (Marlon Brando, em atuação digna de
20 Oscars) está em crise porque a mulher acaba de
cometer suicídio, sem deixar qualquer explicação. Ela
(Maria Schneider, limitada, mas convincente) está em
crise porque não sabe se o futuro que deseja para si é
um casamento com um jovem cineasta. Para ele, o mundo
acabou; para ela, está começando. Para ele, as coisas
perderam o sentido; para ela, os sentidos ainda são
muito complicados. Entre estes dois seres tão
diferentes, há apenas uma ponte: o sexo.
Apenas
um débil mental não percebe que as cenas "polêmicas"
filmadas por Bertolucci, bastante explícitas para a
época, são fundamentais para que o espectador compreenda
o tipo de relacionamento possível para aquele casal tão
improvável. E poucos lembram o que Marlon Brando fala
durante a cena da manteiga: "Vou falar-lhe de segredos
de família, essa sagrada instituição que pretende incutir
virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada
família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são
torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela
repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo.
Família, porra de família!" É como se um professor, que
não acreditasse mais em nada do que ensinou a vida
inteira, tentasse dar uma última aula - verdadeira,
desesperada e muito dolorida. E à aluna, subjugada, só
restasse perder toda a inocência. Inocentes podem ser
felizes, é claro, mas não em filmes como este. Inocentes
têm nome, sobrenome, RG, CPF e família constituída. Os
personagens de "O último tango" não têm nem um nome um
para o outro.
A cena
em que Brando fala com o cadáver de sua esposa no
velório, alternando momentos de raiva, desorientação e,
finalmente, terrível reconciliação consigo mesmo, merece
estar em qualquer antologia dos grandes momentos da arte
interpretativa deste século. Ele também foi gigante em
"O poderoso chefão" e "Apocalypse now", mas aqui sua
força nasce das entranhas de um personagem esmagado, sem
qualquer glamour ou simpatia. Brando vai para o trono ou
não vai? Claro que vai, junto com Bertolucci, que não
poupa nem seus colegas cineastas, pintando o retrato
patético de um diretor "genial", que pensa estar fazendo
uma revolução a cada plano rodado. Do roteiro à
montagem, passando pelos eficientes movimentos de câmara
(marca registrada de Bertolucci) e pela trilha - pop mas
sempre dramática - tudo está a serviço de uma visão de
mundo sombria, mas assustadoramente realista.
"O
último tango em Paris" merece ser revisto (ou
redescoberto) em vídeo, antes que a sua fama
pseudo-escandalosa roube de vez sua verdadeira beleza.
Bertolucci voltaria ao tema em outra obra-prima - "O céu
que nos protege" - igualmente impactante, mas desta vez
rodado em grandes espaços, em vez de confinado às quatro
paredes de um apartamento vazio. E, pensando bem, que
diferença faz? Onde quer que esteja, com quem quer que
ande, com o sol abrasador ou uma lua gelada sobre a
cabeça, o homem é um solitário à procura dele mesmo,
sussurrando e clamando por um sentido para todos os
absurdos que encontra pelo caminho. Bertolucci, capaz de
contar histórias monumentais e pintar afrescos
políticos, como "O último imperador" e "1900", sabe que
estes sussurros e estes clamores solitários ainda são a
melhor matéria-prima para o bom cinema.