DE ANO PARA ANO
Daniel Cristal

De ano para ano conquistamos o espaço e o tempo que nos reserva o destino individual, quando não é colectivo, nas circunstâncias que vamos, ou não, aproveitando eventualmente pela positiva, conjugadas com os condicionalismos vários que nos fazem equacionar também opções múltiplas, adequadas à época, ao local e à sociedade vivenciada em cada particular rumo empreendido. E, de ano para ano, damos conta do que registamos no trajecto vida.

Num ano, haverá certamente oportunidades perdidas, soluções mal aproveitadas, a opção díspar mal gerida, o erro provavelmente evitável; mas não é só connosco que isso acontece; acontece igualmente com a envolvência pessoal; definitivamente, ninguém é alheio aos condicionalismos abrangentes.

De ano para ano a vida compõe-nos com a singularidade com que a construímos como se tentássemos ser mais uma planta florida, que procura juntar-se a todas as outras, de modo a embelezar mais vastamente a existência circundante.

Num ano muitas coisas acontecem; muitas efemérides vamos partilhando: algumas dores, muitas alegrias; de repente, aparecem-nos sorrisos dos entes amados, os risos vindos da alegria festiva, assim como, de igual modo, as desgraças que nos confundem, ou nos pungem violenta, se não mortalmente.

Um ano é longo e breve. Tão longo pelo número de sucessões infinitesimais, quão breve pela súmula do arrebatamento! Nesta circunstância, foi esta vivida no minuto mais feliz com o máximo de intensidade. Pode-se morrer nesse minuto, pois morre-se nele com o êxtase total. De facto, a vida tem o condão de empolgar na hora da arrebatação... Só esta conta na validade existencial.

No fim do ano, murmuramos algumas palavras de saudade pelos que partem e nos deixam mais sós durante a caminhada, todavia lembramos a intensidade dos incidentes, como se eles fossem minuciosamente presentes. E é isso que torna o passado no presente contínuo e o futuro no momento aproximado do hoje. Um caminho que floreamos antes de o calcorrear. Daí este olhar alegre que teima em sê-lo, ultrapassando as contrariedades. É como se cumpríssemos um desígnio divino, ao expurgar a imperfeição que faz parte da nossa natureza, e nos aperfeiçoássemos constantemente, comungando de toda a nossa evolução.

Já vos contei num outro final de ano, a estória do homem que, de um momento para outro, perdeu tudo na vida, e no instante em que ficou na penúria, pegou num estojo de lápis de cor e começou a desenhar flores. Não chorou, não disse mal da sua sorte, não praguejou, nem blasfemou, não; nada disso! Apenas começou sem parar a desenhar flores tranquilamente, como quem não se perturbou com o azar, nem acredita na derrota, nem na desgraça, nem se deixa vencer por um percalço por maior que seja. Enquanto não se encontrar a melhor solução para cada contrariedade: desenhar flores pode ser uma solução, e este acto faz um intervalo necessário; colora-se assim o mundo sem jamais perder a esperança. É, destarte, especialmente poder acreditar no possível recomeço tendo em vista um novo fim.

Quando a barca encalhar
aproveita um novo fôlego
para agitá-la no mar...
Tudo menos ficar trôpego!

Tudo menos a solércia
reactora ao infortúnio,
tudo menos a inércia
de parar o semilúnio.

Encalhada no percurso,
perdida a continuação,
usa a vela de recurso
ou bóia de salvação...

Recomeça, nada temas,
põe este mundo em questão,
perder e vencer são semas
da mesma conjugação.

Se o azar chegou é preciso encará-lo de frente e tratá-lo do modo semelhante à postura humana com a qual alguém, no seu estado perfeito de máxima sabedoria, deveria enfrentar a fortuna. Com igual indiferença. Efectivamente, podemos sempre recomeçar e dar outro rumo programado à existência ou aproveitar novas oportunidades quando elas se aproximam de nós, ou nós nos aproximamos delas, depois de feita a prudente selecção.

Acreditamos que o êxito na vida está no trabalho, no esforço, no suor ( e não no sangue! - o sangue é uma hipérbole caduca despropositada ), pois nem todos somos dotados de riquezas incomensuráveis ou vastamente mensuráveis quanto a bens materiais; e os dotados com bens espirituais afortunados precisam de trabalhar pelo sustento diário seu, ou da sua prole, mesmo que para todos seja um trabalho feito por gosto, às vezes difícil, outras penoso, mas sempre gostoso. Quando não é prazenteiro não será verdadeiramente aliciante!

À medida que a vida atinge o seu termo, é cada vez mais nítida e frequente esta sensação de nos cruzarmos com seres vivos também cada vez mais perfeitos e mais interessantes, mais sábios e mais solidários, e achamos que devemos expressar-lhes a nossa gratidão e felicidade por nos termos cruzado com eles, e sempre que possível, tentamos colocá-los com extremo prazer ao nosso lado. À tua frente não te cuidaria, atrás de ti, não te seguiria, mas ao teu lado dialogaremos em tom festivo para que a caminhada seja mais feliz. Tão feliz quanto baste!

2008. Portugal

 

 



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