A CARTA AO FUTURO
                              
  Daniel Cristal

O que vou revelar agora não é deste tempo nem deste espaço, nem será para a minha época no estado e espaço em que se encontram; é para ti que me irás receber um dia desses, cedo ou tarde, esse mesmo momento em que tiver de ser; porque há sempre um tempo para tudo acontecer. E também há-de acontecer o tempo do Amor, assim que advier o fim do tempo de toda a aprendizagem, se for possível mantermo-nos no cume duma serra, a mais alta encontrada.
 
Eu sei que antes do meu tempo e de me encontrar contigo, hei-de cumprir o que de mim se espera e me está destinado. Nem poderia ser de outro modo. Ninguém contraria a força do destino... O mundo gira no seu eixo próprio, circula, convulsiona, move-se, expande-se e regride na aparência, assim como os nossos corpo e espírito; tal e qual como cada um de nós na nossa pouca significância ou grandeza relativa. De pequenos sem sabermos, tornamo-nos grandes, de grandes, maiores ainda. E quando reduzidos a cinzas, somos vivos na imensidão. É essa a nossa expansão, aparente todavia, porque não pertencemos senão à Harmonia estabelecida. O desamor e a guerra são estados menores, diante da grandeza da tua Casa; são estados patológicos do mundo que no devir permanente, aperfeiçoa-se, contudo, muito lentamente.
 
Mando-te esta carta apenas como quem sopra suavemente uma bolinha-arco-íris-de-sabão, e com um toque de varinha mágica que me ofertaste num dia da minha infância, do qual já não me lembro, pois eu era pequeno, muito pequenino, sabes, não sabes?, tu sabes melhor do que eu!... E com ela cresci e fiquei grande, e só tu sabes a razão por que me ofertaste o melhor dos presentes que me deu vida e com ela pude gozar a natureza no seu todo, e usufruir de todos os frutos proporcionados desta arte, na simplicidade despojada de fatuidades, numa estreita dependência da tua vontade; claro que nem sempre isso aconteceu, mas tu mesmo me armaste com as espadas da guerra e as benesses da paz, e, se fui escolhendo o segundo estado, é porque assim me deste a inclinação ou propensão para ir optando e me encaixando progressivamente  na Harmonia a que me deste prioridade. Se fui poeta a ti devo, e agradeço este facto de dotares-me duma centelha, ainda que minúscula, de toda a tua Poesia. Também devo o atributo (se o que digo não ferir ninguém), aos Amigos e Companheiros que aplaudiram e me incentivaram. Todavia, se não fui, na realidade, o que de me mim dizem, com bastantes generosidade e benquerença, também não tem importância, porque a senti no meu imo, e senti-la é mais profundo e gratificante do que descrevê-la. Tentei apenas exteriorizá-la, e isso me bastou, na simplicidade com que a vivi, sem mágoas de espécie nenhuma, nem quaisquer sentimentos de frustração, que para aqui numa humilde carta, não têm nenhum cabimento.
 
O que me ensinaste em mim se projecta em simples palavras de revelação luminosa; ensinaste-me a fazer do Futuro o nosso presente, e a vivê-lo intensamente, na presença e na ausência da materialidade improcedente, e este é um ponto assente para os poetas e filósofos da nossa geração. Foi também um ideário poético, quase sempre utópico das gerações mais antigas civilizacionais, ininteligíveis para, e, impraticadas, pela maioria dos nossos concidadãos, o que moldou o quotidiano da nossa felicidade possível. A mensagem do Futuro para o presente é mais ou menos assim, por estas ou outras palavras (pois que já não há novidades, senão na forma e no modo - de facto, tudo está dito e profetizado!): dá a tua mão à mão que dela precisa para ela se tornar digna de ti e dela mesma, ama o teu próximo como a ti mesmo, faz o que tens de fazer sem protelar neste hoje contínuo!, e o amor que repartes, a ti regressa com redobrada intensidade compensatória. O que o Futuro deixa ao presente, é esta revelação insistentemente continuada na feitura do quotidiano, na certeza de que queremos aprender a amar mais, evitando de dormir esse tanto que o dia não seja abundantemente aproveitado, e se perca em sonhos e na lassidão! Pois bem, na sequência dos dias, vivemos com esta luz para que o dia de hoje seja mais belo e mais pleno! Se ontem não amei suficientemente, hoje aproveito a oportunidade para exprimir todas as palavras de amor que vêm do coração, e para operar, em conformidade, uma actuação com a qual me relaciono humanamente aqui e agora, sendo certo ainda que o excelso verbo me fez falta no passado para dizer quanto amo a companhia dos que me circundam, e comigo compartilham empaticamente o tempo presente. Ao subir a escarpa da vida, foi o alto da serra que me proporcionou o prazer de ter aí chegado, mas nunca aí me detive por muito tempo; repetidamente, quis subir outra mais íngreme ainda, na certeza concluída de que há uma satisfação enorme no acto de conseguir um objectivo, e a existência resume-se ao que cada um consegue atingir; especialmente na companhia de quem nunca ficou para trás, por desistência, nem de lado a observar-nos tão só como um espectador alheado ou invejoso ou cobiçoso. E como a morte não está programada, e ela pode suceder a qualquer momento, este, em que vivo, é o mais importante da minha vida, e nele quero deixar bem expressa a muita gratidão a quem me acompanhou com empatia e amor. Sem essa companhia, ausente ou presente, morta e viva, não teríamos conseguido alcançar os cumes, aos quais conseguimos chegar. E pensando bem - só nos detém uma dificuldade, é que nem todas as palavras de amor do mundo, chegariam para dizer isto mesmo, e, nas sequência e consequência, vamos tentando cultivar as virtudes da alma até onde podemos e devemos, não descurando a oportunidade de as manifestar, a cada instante adequado. Esta carta ao Futuro, neste presente desajustado, não é mais do que a saudade desse Futuro que tarda em chegar, e contém um lamento subsequente: o Futuro deveria ter sido hoje para todos nós. Deveria já ter acontecido para todos os que estão distanciados desta mensagem, e, também, os que munca a lerão, e os que não se sentirão atraídos pelas suas asserções produzidas na edificação. O mundo do Futuro aqui vivido neste presente enviesado, seria a Felicidade de toda a comunidade humana à superfície deste planeta. O amor, esse amor que nós conhecemos mais ou menos generoso, mais ou menos egocêntrico, mais ou menos remissivo, e também mais ou menos feliz ou infeliz, em consonância com a idiossincrasia de cada um, só encontra a perfeição se se dissolver no outro mais amplo, sendo este o Amor universal. 
 
Quando eu acabar de escrever esta carta, deixarás o tempo e o espaço suspensos, porque ela não mais vai acabar: para os que não se impregnaram do Amor, há sempre a possibilidade do recomeçar o percurso para a felicidade, ou seja, para o estado recheado de plenitude, ou, melhor dizendo, para o Amor contínuo. Depois de impregnado em nós, nunca mais termina. Não termina em nós, nem em ti, porque ele vive eterno, e contém a verdadeira e única grandeza do Ser.
 
Esta carta nem vai ser longa, nem curta, ela terá a proporção que está entre o finito e o infinito; tanto pode durar um instante como o tempo todo; mas gostaria que a visses na configuração de um sorriso magnânimo de benquerença, esse que é a amálgama de todos os sorrisos. Sei que no dia da minha partida para te rever na tua morada, tu me receberás de braços abertos, com o sorriso igual ao que amalgamei na conjunção de todos os que vi, senti e procurei descrever com os sinais que descortinei numa pauta com cores alegres, sons melodiosos e odores inebriantes. Todos as tuas belezas, gozei e glorifiquei, depois da as ter sentido e vivenciado.
 
Se escrevo esta carta é para te dar uma novidade, que só faltava ser verbalizada desta forma e deste modo, e nunca se perde nada em trazê-la para a lembrança actual: o mundo está ainda enfermo com muita desumanidade, mas esta não é a novidade; a novidade significante da maneira como a digo, é que ele está a melhorar com  a tua ajuda e com todos os que estão contigo, não se cansando de lutar pelos objectivos propostos na cumplicidade, e engrossando a voz que cativa quando lida. Só em pensar que nos vais receber um dia, só isso nos ajuda a ultrapassar as crises e as calamidades que por cá surtem de vez em quando, e se experimentam com efeitos mais ou menos perversos e nefastos. De nada adiantarão todas estas guerras que por esta terra se experimentam e proliferam de tempos a tempos. Quer dizer, parece mentira, mas neste espaço planetário nunca houve paz verdadeira. Já adverti os meus concidadãos que o teu poder é mais forte do que o deles, e quando estiverem de partida para a tua morada, não levam nada na bagagem, e por causa deste facto indesmentível, mais vale aproveitarem o tempo para exercitar o espírito da paz, a fim de que, uma vez no teu reino, não estranhem a mudança. Pois, não fazendo isto, assim como vos cito, vão dar-se mal na tua moradia, e deixarão de dormir em paz e sossego; não conseguirão descansar, de gozar as tuas delícias e elixires, e terão de regressar à origem para purgar, na expiação, os seus males. E quem diz a guerra, já que desnudei o pior dos malefícios congénitos da desumanidade, diz também e de igual modo - a ganância. Na tua moradia, ela não actua, contudo existe, esta sim, a abundância dos bens espirituais e materiais, que todos deveriam saber compartilhar. Por conseguinte, um ganancioso em tua Casa, nunca será bem-vindo nem benquisto. Voltará certamente à origem; chamem-lhe até, a essa origem, por exemplo, reencarnação, ou transumância, com a seguinte justificação: regressará à imperfeição, porque não exerceu nem exercitou a capacidade de ser feliz com o que todos dividem, repartem e compartilham, sem lhes chamarem seu, e também porque nunca sublimou essa vaidade escandalosa de exibir títulos de propriedade, abundantes e megalómanos. Ao invés, é caso para anunciar neste momento uma máxima decorrente - essa em que pensas agora e me coibo de parafrasear para que, quem me ler, e um dia que me leia, se habitue a evidenciar com orgulho, em vez de outras transitórias e fugazes, as propriedades do Ser, isso sim, os títulos que são dignos da Humanidade.
 
Só me falta dar-te novas da maior descoberta dos sábios, dos poetas e dos profetas: o Amor renasce vigorosamente. É certo que não é de agora nem de ontem, mas o Amor renasceu com maior amplidão. Há imensos anos atrás, houve Alguém que por cá serviu e falou em Amor. Era um dos teus filhos; depois dele outros falaram, e anteriormente já alguns haviam falado. Mas, este é o estado emotivo e consistente que demora séculos ou milénios a consolidar-se. E a verdade é que há milhares de pessoas a viver o Amor. E quando receberes esta carta serão provavelmente milhões, muitos milhões a falar do que faz falta para que haja Harmonia na Humanidade. Não sei quanto tempo vai demorar esta carta, mas espero que não seja até ao fim do tempo no mundo, nem no fim do mundo no tempo, tal como o conhecemos. Na verdade, tenho a esperança de me ler quando estiver em tua Casa. Guarda esta por favor até esse momento, dado que gostarei de a ler em tua presença, uma vez demonstrado que foste tu quem ma sugeriste e ma inspiraste desta forma neste modo.
 
Até um dia, ou até quando tiver de ser,
com amor,
 
Daniel Cristal  Portugal 2007

 

 


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