ANO MORTO, ANO POSTO
Armando Figueiredo ( Daniel Cristal)
É tanta a urgência da vida
que ela verte homicida
Ao rei que urgia morrer
nem o deixaram esfriar
Outro lhe sucedia
à hora do mesmo dia
Vejam pois se vale viver
neste estado suicida
ou se é melhor aprender
a usufruir da vida.
Sim, como os reis: morre-se e nasce-se. Fina-se
e faz-se um exame de consciência, como se fosse
um julgamento relâmpago, ao recordar os factos
passados na fluidez dos instantes, os mais
vincados na memória, os mais marcantes, e com os
quais sobrevivemos durante 52 semanas repentinas
num corrupio frenético. Como num filme em vídeo,
alta velocidade, reward - forward. Balanço
final: valeu a pena, não valeu?
Os lutadores dizem sim, e os perdedores
desalentados dizem não. Vale sempre a pena, a
quem tenha uma alma e o coração do tamanho deste
mundo na sua proporção macro e micro.
Mesmo que a vida tenha sido madrasta, mesmo que
o ambiente, o 'habitat', onde labutamos não
tenha sido pródigo, só vencem os corajosos, os
que não se deixam derrotar, os teimosos pelos
ideais mais justos, os ousados na inovação, e,
correctores da imperfeição, sejam quais forem as
contrariedades pelas quais passaram. Dos erros
extrair-se-ão as lições que animam a prossecução
de objectivos humanos, sublimadores, com um fito
redentor de queda em elevação, até à perfeição
possível no final.
Querer muito é possuir sempre pouco. Nunca
chega, nunca basta! Querer pouco é obter-se
constantemente mais do que se espera. Ao
trabalhar, tudo o que se consegue é uma bênção
acumulada a outras graças. A felicidade está
mesmo aqui, é este o cerne da questão essencial
e primordial, esta que vale a pena interiorizar
para nosso Bem, e Bem dos outros; é preciso
agarrá-la de cernelha e pelo rabo, para não se
ficar vencido e maldizente.
A quem perde tudo o que amealhou durante boa
parte da sua existência, resta-lhe ficar a
desenhar flores como um ser feliz, ou desistir
com a arrogância e a loucura do covarde!
Desistir é a morte do suicida, desenhar flores é
ter esperança na magnanimidade do espírito da
terra, onde habitamos como peregrinos,
compartilhando dos bens que ela nos oferece
pródiga e gratuitamente. Nunca ninguém pagou
nada por ter nascido e ter sido hospedado numa
casa que não é sua, usufruindo de todos os seus
bens, ainda que mal repartidos. E tanto pode
usufruir como sendo digno dela, quanto pode
estragá-la até a tornar inabitável, ou
conspurcada, especialmente a parte que lhe está
reservada.
Houve alguém que depois de vários infortúnios e
erros, perdeu tudo o que tinha, e tinha
amealhado bastante, mas não se deixou abater,
nem perdeu a alma. Recomeçou do zero e conseguiu
reconstituir a dignidade da sua existência na
esperança de dias melhores. O dia de hoje, bem
aproveitado e vivido, prepara e melhora o de
amanhã. Outro alguém deixou-se aniquilar pela má
sorte e procurou a morte pelas suas próprias
mãos. Eis a diferença entre o corajoso e o
perdedor.
Claro que é difícil e penoso ser-se corajoso. Se
assim não fosse, o executante não seria digno de
admiração, muito embora deixar-se vencer e
desistir da luta seja mais cómodo, mas esta
postura não traz dignidade à vida humana; é ser
vencido pela parte mais fraca.
Antes, ou no momento, da extinção ilusória de
cada ano, percorre-nos o frémito da
espiritualidade, traduzido e revelado na
emotividade própria da quadra natalícia. Já
fomos crianças, e, por consequência, emerge
bastante da nossa meninice nesta época; são as
recordações que chegam à memória, as
reminiscências de afectos e paixões, neste
momento afluindo ao coração particularmente
emocionado por causa do ambiente comunitário,
despoletado nesta quadra do ano... É o nosso
retorno; deslumbramo-nos com a alegria da vida
que nos embala, e , consequentemente, com o
calor, que das crianças emana também... A nossa
indiferença residual é contagiada, e o amor
irrupto dilui-a: provando-se assim que a vida é,
sobretudo, afecto e ternura, nas palavras e nos
gestos; estes desfazem a aridez de uma vida sem
destino, ou, erroneamente projectada em
objectivos fúteis e precários. Deixemo-nos
vencer, então e, por conseguinte, isso sim, pelo
carinho envolvente, e ele inundar-nos-á a
existência.
Sim, como os reis: ano morto, ano posto. Não é
por morrer uma andorinha que acaba a primavera,
como diz um dos nossos fados paradigmáticos! Se
o ano que morreu não foi o melhor da nossa vida,
se ele foi até o pior da nossa existência,
reconheçamos que a culpa foi nossa, e só nossa.
Só assim poderemos aperfeiçoarmo-nos e
progredirmos.
Reconheçamos que cometemos erros que nos
abalaram, e estamos dispostos a corrigi-los, com
ou sem ajuda. Se for com ajuda tanto melhor.
Isso significa que ainda temos amigos, esses
baluartes e anjos do Bem que ainda nos ajudam a
descortinar belezas imperecíveis, e nos auxiliam
também a ter esperança na vida advinda. Porém,
se for sem ajuda, porque nenhum amigo nos
reconheceu, nem se abeirou quando o infortúnio
nos bateu à porta, o nosso renascimento também
será compensador e edificante, e isto quer dizer
que somos capazes de vencer as contrariedades
com ânimo redobrado; embora seja mais difícil a
superação da dor e do desalento, mais mérito
colherá o protagonista, se não voltar a errar
nos cometimentos posteriores semelhantes. Vencer
sozinho é uma vitória hercúlea, digna da mais
alta veneração.
Ano morto, ano posto, como os reis. O ano
vindouro vai ser melhor que o transacto. Para
tanto, vamos corrigir os nossos erros, vamos
adoptar uma atitude e postura mais humanas, mais
amorosa perante a vida e em relação aos outros
seres que nos rodeiam, vamos pedir menos para
que o que recebermos sem contar, nos possa
encher o coração de alegria; vamos dar mais,
muito mais desses bens que até não são nossos,
mas pertencem à Humanidade que nos fez nascer
despojados de tudo, com a última morada à espera
- a terra; ela aguarda-nos para que nela sejamos
pulverizados sem levarmos connosco nenhum desses
bens, que julgávamos ser vaidosamente nossos...
Vamos dar aquilo que nos compete dar, não
deixando que os nossos descendentes façam isso
por nós; vamos dar, e dar-nos, mesmo contando e
esperando não receber nenhuma retribuição. O
prazer de dar pode ser maior do que o de
receber. Como este, de vos dar a evidente
revelação do que escrevo, sem nada pedir em
troca, nem um agradecimento, contando sempre que
posso ter ajudado alguém em alguma coisa num
momento indeterminado. E é nesta satisfação,
esta que foi, e é, toda e só minha, que fiquei e
fico com a convicção de dar uma ajuda a quem
pode precisar em qualquer momento. A retribuição
estará porventura no agradecimento que faço
àqueles que já me ajudaram, quando precisei, sem
me pedirem nada em retribuição. E como
precisamos uns dos outros, creio também que
devemos ajudar-nos todos, assim, generosamente,
sem nenhuma graça ou bênção, as quais aparecerão
de certeza, independentes de nós, para nossa
alegria constante.
Do erro fiz minha escola
e apesar de tudo perdido
prestes a pedir esmola
à busca de outro sentido
quase rota a sacola...
Ergui-me sem nunca ter percebido
nem lido
qual seria essa mola
nesta energia que assola
e que nos ergue após caídos
sem nos sentirmos esvaídos
quando o infortúnio bate à porta
com a alma quase morta.
Com confiança me ergo
sempre em união permanente
na esperança que te devo.
Feliz AnoNovo, Caro Amigo, quem quer que me ouça
!!!...
Escrito e divulgado em vários jornais
portugueses... e lido por Vítor Nobre em 1997 na
Rádio Clássica, Antena 2. Revisto e corrigido
neste momento para alguns Grupos da Internet, no
fim do ano da graça de 2006.
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