A Camões 

Quando n'alma pesar de tua raça 
A névoa da apagada e vil trizteza, 
Busque ela sempre a glória que não passa, 
Em teu poema de heroísmo e de beleza. 

Gênio purificado na desgraça, 
Tu resumiste em ti toda a grandeza: 
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça 
O amor da grande pátria portuguesa. 

E enquanto o fero canto ecoar na mente 
Da estirpe que em perigos sublimados 
Plantou a cruz em cada continente, 

Não morrerá, sem poetas nem soldados, 
A língua em que cantaste rudemente 
As armas e os barões assinalados. 

Manuel Bandeira 


Um Sorriso 

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto. 
A sombra já enoitava as moutas. A umidade 
Aveludava o musgo. E tanta suavidade 
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto. 

A viração do oceano acariciava o rosto 
Como incorpóreas mãos. Fosse ágoa ou saudade, 
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade. 
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto... 

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos... 
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia 
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos... 

A paisagem ficou espiritualizada. 
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia 
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada... 

Manuel Bandeira 


Soneto Italiano 

Frescuras das sereias e do orvalho, 
Graça dos brancos pes dos pequeninos, 
Voz das anhãs cantando pelos sinos, 
Rosa mais alta no mais alto galho: 

De quem me valerei, se não me valho 
De ti, que tens a chave dos destinos 
Em que arderam meus sonhos cristalinos 
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho? 

Também te vi chorar... Também sofreste 
A dor de ver secarem pela estrada 
As fontes da esperança... E não cedeste! 

Antes, pobre, despida e trespassada, 
Soubeste dar à vida, em que morreste, 
Tudo - à vida, que nunca te deu nada! 

Manuel Bandeira 


Soneto Sonhado

Meu tudo, minha amada e minha amiga,
Eis, compendiada toda num soneto,
A minha profissão de fé e afeto,
Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

O que nalma guardei de muito antiga
Experiência foi pena e ansiar inquieto.
Gosto pouco do amor ideal objeto
Só, e do amor só carnal não gosto miga.

O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longes da distância?...

Não te prometo os estos, a alegria,
A assunção... Mas em toda circunstância
Ser-te-ei sincero como a luz do dia.

Manuel Bandeira 

Variações Sérias em Forma de Soneto 

Vejo mares tranqüilos, que repousam, 
Atrás dos olhos das meninas sérias. 
Alto e longe elas olham, mas não ousam 
Olhar a quem as olha, e ficam sérias. 

Nos encantos dos lábios se lhe pousam 
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias 
São, alto e longe, que nem eles ousam 
Dar um sorriso àquelas bocas sérias. 

Em que pensais, meninas, se repousam 
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam 
Entrar paragens tristes tão sérias! 

Mas poderei dizer-vos que eles ousam? 
Ou vão, por injunções muito mais sérias, 
Lustrar pecados que jamais repousam? 

Manuel Bandeira 

 

 


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