A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis 


MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna 
De pompa, de fulgor, de movimento e lida, 
Uma escala de luz, uma escala de vida 
De sol à ínfima luzerna. 

Ouço que a natureza, - a natureza externa, - 
Tem o olhar que namora e o gesto que intimida, 
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna 
Entre as flores da bela Armida. 

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho 
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo 
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho, 

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo, 
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme, 
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme. 

Machado de Assis 

SONETO CIRCULAR

A bela dama ruiva e descansada, 
De olhos longos, macios e perdidos, 
Co'um dos dedos calçados e compridos 
Marca a recente página fechada. 

Cuidei que, assim pensando, assim colada 
Da fina tela aos flóridos tecidos, 
Totalmente calados os sentidos, 
Nada diria, totalmente nada. 

Mas, eis da tela se despega e anda, 
E diz-me: - "Horácio, Heitor, Cibrão, Miranda, 
C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo, 

Mandam-me aqui para viver contigo." 
Ó bela dama, a ordens tais não fujo. 
Que bons amigos são! Fica comigo.

Machado de Assis 


MARIA

Maria, há no seu gesto airoso o nobre, 
Nos olhos meigos e no andar tão brando, 
Um não sei que suave que descobre, 
Que lembra um grande pássaro marchando. 

Quero, às vezes, pedir-lhe que desdobre 
As asas, mas não peço, reparando 
Que, desdobradas, podem ir voando 
Levá-la ao teto azul que a terra cobre. 

E penso então, e digo então comigo: 
"Ao céu, que vê passar todas as gentes 
Bastem outros primores de valia. 

"Pássaro ou moça, fique o olhar amigo, 
O nobre gesto e as graças excelentes 
Da nossa cara e lépida Maria". 

Machado de Assis 

SONETO DE NATAL

Um homem, - era aquela noite amiga, 
Noite cristã, berço do Nazareno, - 
Ao relembrar os dias de pequeno, 
E a viva dança, e a lépida cantiga, 

Quis transportar ao verso doce e ameno 
As sensações da sua idade antiga, 
Naquela mesma velha noite amiga, 
Noite cristã, berço do Nazareno. 

Escolheu o soneto... A folha branca 
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca, 
A pena não acode ao gesto seu. 

E, em vão lutando contra o metro adverso, 
Só lhe saiu este pequeno verso: 
"Mudaria o Natal ou mudei eu?" 

Machado de Assis 

 

 


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