DOR 

Há de ser uma estrada de amarguras 
a tua vida. E andá-la-ás sozinho, 
vendo sempre fugir o que procuras 
disse-me um dia um pálido advinho. 

No entanto, sempre hás de cantar venturas 
que jamais encontraste... O teu caminho, 
dirás que é cheio de alegrias puras, 
de horas boas, de beijos, de carinho..." 

E assim tem sido... Escondo os meus lamentos: 
É meu destino suportar sorrindo 
as desventuras e os padecimentos. 

E no mundo hei de andar, neste desgosto, 
a mentir ao meu íntimo, cobrindo 
os sinais destas lágrimas no rosto! 

Humberto de Campos 


BEATRIZ

Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias
Turquesas, e esmeraldas luminosas...

E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ressábios
De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!

Humberto de Campos 


O MILAGRE DE GUAXENDUBA 

Minha Terra natal, em Guaxenduba; 
Na trincheira, em que o luso ainda trabalha, 
A artilharia, que ao francês derruba, 
Por três bocas letais pragueja e ralha. 

O leão de França, arregaçando a juba, 
Saltou. E o luso, como um tigre, o atalha. 
Troveja a boca do arcabuz, e a tuba 
Do índio corta o clamor e o medo espalha. 

Foi então que se viu, sagrando a guerra, 
Nossa Senhora, com o Menino ao colo, 
Surgir lutando pela minha terra. 

Foi-lhe vista na mão a espada em brilho... 
(Pátria, se a Virgem quis assim teu solo, 
Que por ti não fará quem for teu filho?) 

Humberto de Campos 

ÁFRICA

Na partilha das sáfaras conquistas
Desta Líbia de mouros rancorosos,
O Deserto foi dado aos Poderosos
E o Oásis, florido e mínimo, aos Artistas.

E os felizes, quais são? Os mil sofistas
Da Ventura, a pedir, de olhos gulosos,
Terra e mais terra? Ou o que limita os gozos
E em sete palmos acomoda as vistas?

Certo, não sereis vós, ó Donatários
Do alvo Deserto, que velais, em guerra,
A áurea carga dos vossos dromedários.

Mas, tu, ó Poeta, que, por onde fores,
Teus sete palmos hás de achar na terra
Abrindo em trigo, rebentado em flores!

Humberto de Campos 

TEMPESTADE AMAZÔNICA

O calor asfixia e o ar escurece. O rio,
Quieto, não tem uma onda. Os insetos na mata
Zumbem tontos de medo. E o pássaro, o sombrio
Da floresta procura, onde a chuva não bata.

Súbito, o raio estala. O vento zune. Um frio
De terror tudo invade... E o temporal desata
As peias pelo espaço e, bufando, bravio,
O arvoredo retorce e as folhas arrebata.

O anoso buriti curva a copa, e farfalha.
Aves rodam no céu, num estéril esforço,
Entre nuvens de folha e fragmentos de palha.

No alto o trovão repousa e em baixo a mata brama.
Ruge em meio a amplidão. Das nuvens pelo dorso
Correm serpes de fogo. E a chuva se derrama...

Humberto de Campos 

 

 


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