Soneto
Frei Antônio das Chagas (1631-1682)
Deus pede hoje estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta
Eu que gastei sem conta tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo, fazer conta.
Hoje quero fazer conta e não há tempo.
Oh! Vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo em fazer conta.
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, se não der tempo.
À vaidade do mundo
É a vaidade, Fábio, desta vida
Rosa que na manhã lisonjeada
Púrpuras mil com ambição coroada
Airosa rompe, arrasta presumida;
É planta que de Abril favorecida
Por mares de soberba desatada,
Florida galera empavezada,
Surca ufana, navega destemida;
É nau, enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de fénix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza.
Mas ser planta, rosa e nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
Frei António das Chagas
A um pé pequeno
Instante de jasmim, concepto breve,
Átomo de azucena presumido,
Pues os juzgan las ansias del sentido
Sospecha de crystal, susto de nieve;
No pié, mentira sois, pues, como aleve,
Ni verdad en un punto haveis cumplido,
Antes digo que escrupulo haveis sido,
Pues de ser o no ser la duda os mueve.
Como, si idea sois de ojos tan claros,
Hazeis la vista fe para creeros,
Y hazeis los ojos fe para miraros?
Yo me persuado en fin, que hede perderos,
Porque si el veros es imaginaros,
Siendo imaginacion, como hede veros?
Frei António das Chagas
A SANTA MARIA MADALENA
Frei Antônio das Chagas (1631-82)
De noite a Madalena vai segura,
Passa por homens de armas sem temor,
Tanto enlevada vai no seu amor
Que não atende a quanto se aventura.
Indo buscar a vida à sepultura,
Quando não achou nela a seu Senhor,
Com suspiros, com lágrimas, com dor
Movia à piedade a pedra dura.
- Suave esposo meu, todo o meu bem -
Os olhos no sepulcro, começou
- Quem vos levou, Senhor, donde vos tinha?
Quem vos levou, Senhor, onde vos tem?
Torne-me meu Senhor quem mo levou
Ou leve com meu corpo esta alma minha.
Ao Cavalo do Conde de Sabugal
que fazia Grandes Curvetas
Galhardo bruto, teu bizarro alento
Música é nova, com que aos olhos cantas,
Pois na harmonia de cadências tantas
É clave o freio, é solfa o movimento.
Ao compasso da rédea, ao instrumento
Do chão, que tocas, quando a vista encantas,
Já baixas grave, e agudo já levantas,
Onde o pisar é som, e o andar concento.
Cantam teus pés, e o teu meneio pronto,
Nas fugas, não, nas cláusulas medido,
Mil consonâncias forma m cada ponto.
Pois em falsas airosas suspendido,
Ergues em cada quebro um contraponto,
Fazes em cada passo um sustenido.
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
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