À Madalena [1]
Frei Agostinho da Cruz
Tal luz à Madalena alumiava
(fermosa desd'então, dantes tão feia)
Que não me pareceu ser casa alheia
Aquella, onde o Senhor de tudo estava.
5 E como quem por tal o confessava,
Não teme, não duvida, não receia
Mostrar sinais de dôr, de que alma é cheia
Tão longe, de tão perto suspirava.
Na terra está lançada; e mais regando
10 Com lágrimas as plantas do Senhor,
A cuja sombra colhe doce fruito.
Muito lhe perdoou, porque amou muito;
E muito mais lhe deu depois que amor
Em lágrimas de dôr a foi banhando.
À Mesma Santa
Frei Agostinho da Cruz
Diante do Senhor está lançada
A Madalena triste, e vergonhosa,
Qual na força do sol a fresca rosa
De seus ardentes raios traspassada.
5 A nova e grave dor lhe tem roubada
(Sinal do que padece) a voz queixosa;
Lembra-lhe que passou tão perigosa
Vida, da vida sua descuidada.
Os pés, que dos seus passos foram guia,
Em lágrimas banhados alimpava
10 Com os cabelos de que se cubria.
Ali do Redentor, a quem buscava,
Encaminhada foi; porque queria
Que amasse muito mais; quem tanto amava!
À Mesma indo ao Sepulcro
Frei Agostinho da Cruz
Depois que não achou na sepultura
Seu Senhor, a fermosa Madalena,
Os seus longos cabellos desordena,
Vingando-se na sua fermosura:
5 - Ingrata fui, Senhor, fui cega, e dura,
(Dizia) minha culpa me condena,
Que se temia dôr, tormento, ou pena,
Em que parte estivera mais segura?
Se donde vos deixei não me apartara,
10 Não me roubara a mim, quem me roubou:
Tantas forças amor darme podia!
Porque me fui daqui? que mais queria
Que matarme, Senhor, quem vos matou?
Pode ser que convosco me levara...
A Santa Marta e Maria
Frei Agostinho da Cruz
Queixava-se Marta de Maria,
Que servir seu Senhor não lhe ajudave;
Mas o Senhor Maria desculpava,
De quem, mais que de Marta, se servia.
5 Porque, quando ela mais se distraía
No serviço de quem a agasalhava,
Sem se bulir Maria donde estava
Os pés do Redentor mais merecia.
Do qual foi a queixosa respondida,
10 Que andava em muitas cousas ocupada,
Sendo só necessária uma na vida,
Que nunca poderia ser tirada
A Maria, de quem fora escolhida,
Escolhida, de quem fora ensinada.
À Sua Morte (de Madalena)
Frei Agostinho da Cruz
A corte dos celestes moradores
Da virtude da cruz hoje se espante,
Que entra uma pecadora triunfante
A dar posse da glória a pecadores.
5 Quem das lágrimas fez conquistadores,
Bandeiras de vitória no ceo plante;
E a gozar dos tesouros se levante,
De que os pés de Jesus foram penhores.
Dele tira o remédio eficaz
10 Que o ceo, a terra, a vida, a morte, a culpa,
Abre, apura, reforma, vence, apaga.
Alquimia, que da ofensa fez desculpa,
Diluvio, em que se salva quem se alaga,
São milagres de amor, que só Deos faz.
A Santa Maria Madalena
Frei Agostinho da Cruz
Perdido el nombre, del pecado esclava,
esclava de Dios se hizo de limpieza,
limpieza abraça y dexa la torpeza,
torpeza jusga al mundo y lo que amava.
5 Amava el mundo que la despeñava,
despeñava el sentido en su bruteza,
bruteza le ofuscava la nobleza,
nobleza hoy declara quanto errava.
Errava Magdalena, el blanco errando,
10 errando acierta y vive de amor llena,
llena de un fuego, en otro se resuelve;
Resuelve en amar, y ama llorando,
llorando lava, y mata culpa y pena;
pena por ella el cielo, a quien se buelve.
[1] In Sonetos e Elegias, (Lisboa: Hiena),
1994, pp.58, 59, 78, 142, 243;
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