MAIO 

Eis que Maio chegou! Mas triste e desolado,
Sem primores de rosas e graças de boninas,
Já não ostenta o verde alegre das campinas,
Semelha um pobre rei de galas despojado!

Crestou do vento ardente, a louçania aos prados
A terra calcinou-se, e no vale, nas colinas
Já não tem o dulçor da linfa cristalina
Domina a solidão nos eternos descampados.

Rosas morrendo ao sol! Até sobre os altares
Da virgem sacrossanta, ela não vem aos pares
Exalar o seu perfume em grata suavidade.

Pobre Terra da Luz! Não tens mais primavera,
E, em vez de flores mil, que tinhas noutras eras,
Envolve-te a tristeza outonal da saudade! 

Francisca Clotilde, A Estrella, Maio de 1915


ÍRIS

Ergue-se a cruz no monte! as sombras lutulentas
Foram-se as nuvens negras, procelosas,
Ostenta o íris as cores luminosas,
Cessa o terror, se espalha a alacridade.

Já não se escuta a voz da tempestade
O vento se acalmou, brisas cheirosas,
Vão soprando de manso, cariciosas,
Trazendo a paz do céu que nos invade.

Os corações se expandem docemente,
O espírito agitado ora descansa,
Aos sorrisos da luz clara fulgente!...

Íris do amor, estrella da bonança,
Temos, da vida na hora mais pungente,
O divino conforto da esperança.

Francisca Clotilde, à graça seductora de Irene Marinho, A Estrella, 1909


O CAMINHO DA GLÓRIA 

Sempre a olhar a bandeira erguida e tremulante, 
Visão sublime e pura, imagem consagrada, 
E sentindo o amor, a chama acrisolada,
Esquece a noiva o lar e a família distante.

Que lhe importa morrer? Num ardor incessante
Quer ver enaltecida a flâmula sagrada
E o sangue a referver, vigoroso, estuante,
Que corra vivo e rubro, em prol da terra amada,

Ouve o som do canhão e inda mais se avigora;
Parece circundando em fulgores de aurora,
Na luz de um novo sol que anuncia vitória;

E, ao cair sobre a arena ainda fita a bandeira
Essa estrela que brilha, a mostrar altaneira,
Sobre as ruínas da Pátria, o caminho da glória!

Francisca Clotilde, junho de 1918


MÊS DAS FLORES 

És das flores o mês, o belo mês festivo,
Em que virgem do céu, a terra inteira exalta;
Tem do inverno o esplendor no verde que se esmalta
Quase sempre num tom mais nítido e expressivo.

Ao ver-te quem não sente em ti o anseio vivo
De gozar teu encanto e a graça que ressalta
Da linda primavera e brilha inspirativo,
Se o afeto docemente a alma me assalta?

Que lembranças de outrora! Ao rosicler da infância
Feliz eu te esperava e a cândida fragrância
Espalhavas do bem em doce alacridade.

És sempre o mês florido, ameno e perfumado,
Mas para que um coração em mágoas torturado
Tens em meio da flor o espírito da saudade.

Francisca Clotilde, Mulheres do Brasil, 1971:245

ÊXTASE 

Com as asas da Fé transporto-me às alturas
E sondo a profundidade enorme dos mistérios,
Vejo a estrela brilhar nos pássaros etéreos
E me enlevo a fitar as lúcidas planuras.

Ai! Que clarões divulgo!... Nesses mundos aéreos
Não se sente de leve as trevas e amarguras,
Deste viver terreno, entre ilusões e agruras
Quem me dera fugir aos espaços sidéreos!

Eu te bendigo, oh! Fé que me levas assim,
Bem longe das misérias... na amplidão sem fim
Onde reina a beleza esplêndida dos céus;

Feliz de quem se sente assim arrebatado
Num êxtase de amor, ao trono constelado
Bem perto do infinito e bem junto de Deus

Francisca Clotilde, A Estrella, julho de 1916

 

 


Todos os direitos reservados
Sala de Poetas
AVSPE
Copyright © By Efigênia Coutinho
2006

Esta página, composta por texto e arte gráfica,
é protegida pela Lei de Direito Autorais -
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998,
e pelos tratados e convenções internacionais.
Respeite os direitos da autor,
para que seus direitos também
sejam respeitados, sempre.

 



Michael_van_Laar-Fantasy_For_Two.mp3

CrysGráficos&Design