Ah um Soneto!!! 

Meu coração é um almirante louco 
que abandonou a profissão do mar 
e que a vai relembrando pouco a pouco 
em casa a passear, a passear... 

No movimento (eu mesmo me desloco 
nesta cadeira, só de o imaginar) 
o mar abandonado fica em foco 
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços. 
Há saudades no cérebro por fora. 
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração 
que eu falava... e onde diabo estou eu agora 
com almirante em vez de sensação?... 

Fernando Pessoa 

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso, 
Mas, quando dispertei da confusão, 
Vi que esta vida aqui e este universo 
Não são mais claros do que os sonhos são 

Obscura luz paira onde estou converso 
A esta realidade da ilusão 
Se fecho os olhos, sou de novo imerso 
Naquelas sombras que há na escuridão. 

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida, 
É a mesma mistura de entre-seres 
Ou na noite, ou ao dia transferida. 

Nada é real, nada em seus vãos moveres 
Pertence a uma forma definida, 
Rastro visto de coisa só ouvida. 

Fernando Pessoa 


Qual é a tarde por achar

Qual é a tarde por achar 
Em que teremos todos razão 
E respiraremos o bom ar 
Da alameda sendo verão, 

Ou, sendo inverno, baste 'star 
Ao pé do sossego ou do fogão? 
Qual é a tarde por voltar? 
Essa tarde houve, e agora não. 

Qual é a mão cariciosa 
Que há de ser enfermeira minha - 
Sem doenças minha vida ousa - 

Oh, essa mão é morta e osso ... 
Só a lembrança me acarinha 
O coração com que não posso.

Fernando Pessoa 

Leva-me longe, meu suspiro fundo, 

Leva-me longe, meu suspiro fundo, 
Além do que deseja e que começa, 
Lá muito longe, onde o viver se esqueça 
Das formas metafísicas do mundo. 

Aí que o meu sentir vago e profundo 
O seu lugar exterior conheça, 
Aí durma em fim, aí enfim faleça 
O cintilar do espírito fecundo. 

Aí ... mas de que serve imaginar 
Regiões onde o sonho é verdadeiro 
Ou terras para o ser atormentar ? 

É elevar demais a aspiração, 
E, falhado esse sonho derradeiro, 
Encontrar mais vazio o coração. 

Fernando Pessoa 

Quando olho para mim não me percebo. 

Quando olho para mim não me percebo. 
Tenho tanto a mania de sentir 
Que me extravio às vezes ao sair 
Das próprias sensações que eu recebo. 

O ar que respiro, este licor que bebo, 
Pertencem ao meu modo de existir, 
E eu nunca sei como hei de concluir 
As sensações que a meu pesar concebo. 

Nem nunca, propriamente reparei, 
Se na verdade sinto o que sinto. Eu 
Serei tal qual pareço em mim? Serei 

Tal qual me julgo verdadeiramente? 
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, 
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Fernando Pessoa 

 

 


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