Cenas de escravidão

Acabara o castigo... áspero, cavo,
Cheio de angústia um grito lancinante
Estala atroz na boca hirta, arquejante;
Na boca negra, esquálida do escravo...

O seu algoz... oh! não — íntimo travo
O seu olhar espelha — rubro, iriante...
É um escravo também, brônzeo, possante;
Arfa-lhe em dor o peito largo e bravo!

Cumprira as ordens do Senhor... tremente,
Fita o infeliz, calcado ao chão, dolente,
Velado o olhar num dolorido brilho...

Fita-o... depois, num ímpeto sublime
Ergue-o; no peito cálido o comprime,
Cinge-o a chorar — Meu filho! pobre filho!

Euclides da Cunha

Reminiscência

Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre pântanos um branco lírio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio véu das noivas do martírio!

Pedia esmola — pequena e séria —
Os seios, pastos de eternal delírio,
Cobertos eram de uma cor cinérea —
Seus olhos tinham o brilhar do círio.

Tempos depois n’um carro — audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi — febril, galante...
Lancei-lhe o olhar e... maldição! tremi...

Ria-se — cínica, servil... faceira?
O carro n’uma nuvem de poeira
Se arremessou... e eu nunca mais a vi!

Euclides da Cunha

Um soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lábio trêmulo, esplêndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a espádua e devorou-te o seio.

Depois, delírio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciência, a crença
Lancei no incêndio dos olhares teus...

Hoje estou pronto à lívida jornada
Da descrença sem luz, da dor do nada...
Já disse ontem à noite, adeus, a Deus!

Euclides da Cunha

DEDICATÓRIA

SE ACASO uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando - deste grupo bem no meio -

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais pálido, o mais feio.

Euclides da Cunha

PÁGINA VAZIA

QUEM VOLTA da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?"

Euclides da Cunha


 

 


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