Sonetilho
do
Falso
Fernando
Pessoa
Onde
nasci,
morri.
Onde
morri,
existo.
E
das
peles
que
visto
muitas
há
que
não
vi.
Sem
mim
como
sem
ti
posso
durar.
Desisto
de
tudo
quanto
é
misto
e
que
odiei
ou
senti.
Nem
Fausto
nem
Mefisto,
à
deusa
que
se
ri
deste
nosso
oaristo,
eis-me
a
dizer:
assisto
além,
nenhum,
aqui,
mas
não
sou
eu,
nem
isto.
Carlos
Drummond
de
Andrade
A
grande
dor
das
cousas
que
passaram
A
grande
dor
das
cousas
que
passaram
transmutou-se
em
finíssimo
prazer
quando,
entre
fotos
mil
que
se
esgarçavam,
tive
a
fortuna
e
graça
de
te
ver.
Os
beijos
e
amavios
que
se
amavam,
descuidados
de
teu
e
meu
querer,
outra
vez
reflorindo,
esvoaçaram
em
orvalhada
luz
de
amanhecer.
Ó
bendito
passado
que
era
atroz,
e
gozoso
hoje
terno
se
apresenta
e
faz
vibrar
de
novo
minha
voz
para
exaltar
o
redivivo
amor
que
de
memória-imagem
se
alimenta
e
em
doçura
converte
o
próprio
horror!
Carlos
Drummond
de
Andrade
Retorno
Meu
ser
em
mim
palpita
como
fora
do
chumbo
da
atmosfera
constritora.
Meu
ser
palpita
em
mim
tal
qual
se
fora
a
mesma
hora
de
abril,
tornada
agora.
Que
face
antiga
já
se
não
descora
lendo
a
efígie
do
corvo
na
da
aurora?
Que
aura
mansa
e
feliz
dança
e
redoura
meu
existir,
de
morte
imorredoura?
Sou
eu
nos
meus
vinte
aons
de
lavoura
de
sucos
agressivos,
qe
elabora
uma
alquimia
severa,
a
cada
hora.
Sou
eu
ardendo
em
mim,
sou
eu
embora
não
me
conheça
mais
na
minha
flora
que,
fauna,
me
devora
quanto
é
pura.
Carlos
Drummond
de
Andrade
A
Vida
Passada
a
Limpo
Ó
esplêndida
lua,
debruçada
sobre
Joaquim
Nabuco,
81.
Tu
não
banhas
apenas
a
fachada
e
o
quarto
de
dormir,
prenda
comum.
Baixas
a
um
vago
em
mim,
onde
nenhum
halo
humano
ou
divino
fez
pousada,
e
me
penetras,
lâmina
de
Ogum,
e
sou
uma
lagoa
iluminada.
Tudo
branco,
no
tempo.
Que
limpeza
nos
resíduos
e
vozes
e
na
cor
que
era
sinistra,
e
agora,
flor
surpresa,
já
não
destila
mágoa
nem
furor:
fruto
de
aceitação
da
natureza,
essa
alvura
de
morte
lembra
amor.
Carlos
Drummond
de
Andrade
Remissão
Tua
memória,
pasto
de
poesia,
tua
poesia,
pasto
dos
vulgares,
vão
se
engastando
numa
coisa
fria
a
que
tu
chamas:
vida,
e
seus
pesares.
Mas,
pesares
de
quê?
perguntaria,
se
esse
travo
de
angústia
nos
cantares,
se
o
que
dorme
na
base
da
elegia
vai
correndo
e
secando
pelos
ares,
e
nada
resta,
mesmo,
do
que
escreves
e
te
forçou
ao
exílio
das
palavras,
senão
contentamento
de
escrever,
enquanto
o
tempo,
em
suas
formas
breves
ou
longas,
que
sutil
interpretavas,
se
evapora
no
fundo
do
teu
ser?
Carlos
Drummond
de
Andrade
