CAMINHO
I
Tenho
sonhos
cruéis;
n'alma
doente
Sinto
um
vago
receio
prematuro.
Vou
a
medo
na
aresta
do
futuro,
Embebido
em
saudades
do
presente...
Saudades
desta
dor
que
em
vão
procuro
Do
peito
afugentar
bem
rudemente,
Devendo,
ao
desmaiar
sobre
o
poente,
Cobrir-me
o
coração
dum
véu
escuro!...
Porque
a
dor,
esta
falta
d'harmonia,
Toda
a
luz
desgrenhada
que
alumia
As
almas
doidamente,
o
céu
d'agora,
Sem
ela
o
coração
é
quase
nada:
Um
sol
onde
expirasse
a
madrugada,
Porque
é
só
madrugada
quando
chora.
Camilo
Pessanha
SONETO
Tatuagens
complicadas
do
meu
peito:
Troféus,
emblemas,
dois
leões
alados...
Mais,
entre
corações
engrinaldados,
Um
enorme,
soberbo,
amor-perfeito...
E
o
meu
brasão...
Tem
de
oiro,
num
quartel
Vermelho,
um
lis;
tem
no
outro
uma
donzela,
Em
campo
azul,
de
prata
o
corpo,
aquela
Que
é
no
meu
braço
como
que
um
broquel.
Timbre:
rompante,
a
megalomania...
Divisa:
um
ai,
-
que
insiste
noite
e
dia
Lembrando
ruínas,
sepulturas
rasas...
Entre
castelos
serpes
batalhantes,
E
águias
de
negro,
desfraldando
as
asas,
Que
realça
de
oiro
um
colar
de
besantes!
Camilo
Pessanha
PAISAGENS
DE
INVERNO
II
Passou
o
outono
já,
já
torna
o
frio...
-
Outono
de
seu
riso
magoado.
Álgido
inverno!
Oblíquo
o
sol,
gelado...
-
O
sol,
e
as
águas
límpidas
do
rio.
Águas
claras
do
rio!
Águas
do
rio,
Fugindo
sob
o
meu
olhar
cansado,
Para
onde
me
levais
meu
vão
cuidado?
Aonde
vais,
meu
coração
vazio?
Ficai,
cabelos
dela,
flutuando,
E,
debaixo
das
águas
fugidias,
Os
seus
olhos
abertos
e
cismando...
Onde
ides
a
correr,
melancolias?
-
E,
refratadas,
longamente
ondeando,
As
suas
mãos
translúcidas
e
frias...
Camilo
Pessanha
OLVIDO
Desce
por
fim
sobre
o
meu
coração
O
olvido.
Irrevocável.
Absoluto.
Envolve-o
grave
como
véu
de
luto.
Podes,
corpo,
ir
dormir
no
teu
caixão.
A
fronte
já
sem
rugas,
distendidas
As
feições,
na
imortal
serenidade,
Dorme
enfim
sem
desejo
e
sem
saudade
Das
coisas
não
logradas
ou
perdidas.
O
barro
que
em
quimera
modelaste
Quebrou-se-te
nas
mãos.
Viça
uma
flor...
Pões-lhe
o
dedo,
ei-la
murcha
sobre
a
haste...
Ias
andar,
sempre
fugia
o
chão,
Até
que
desvairavas,
do
terror.
Corria-te
um
suor,
de
inquietação...
Camilo
Pessanha
VÊNUS
II
Singra
o
navio.
Sob
a
água
clara
Vê-se
o
fundo
do
mar,
de
areia
fina...
-
Impecável
figura
peregrina,
A
distância
sem
fim
que
nos
separa!
Seixinhos
da
mais
alva
porcelana,
Conchinhas
tenuemente
cor
de
rosa,
Na
fria
transparência
luminosa
Repousam,
fundos,
sob
a
água
plana.
E
a
vista
sonda,
reconstrui,
compara,
Tantos
naufrágios,
perdições,
destroços!
-
Ó
fúlgida
visão,
linda
mentira!
Róseas
unhinhas
que
a
maré
partira...
Dentinhos
que
o
vaivém
desengastara...
Conchas,
pedrinhas,
pedacinhos
de
ossos...
Camilo
Pessanha