Intimidade
Quando,
sorrindo,
vais
passando,
e
toda
Essa
gente
te
mira
cobiçosa,
És
bela
-
e
se
te
não
comparo
à
rosa,
É
que
a
rosa,
bem
vês,
passou
de
moda...
Anda-me
às
vezes
a
cabeca
à
roda,
Atrás
de
ti
também,
flor
caprichosa!
Nem
pode
haver,
na
multidão
ruidosa,
Coisa
mais
linda,
mais
absurda
e
doida.
Mas
é
na
intimidade
e
no
segredo,
Quando
tu
coras
e
sorris
a
medo,
Que
me
apraz
ver-te
e
que
te
adoro,
flor!
E
não
te
quero
nunca
tanto
(ouve
isto)
Como
quando
por
ti,
por
mim,
por
Cristo,
Juras
-
mentindo
-
que
me
tens
amor...
Antero
de
Quental
Lacrimae
Rerum
Noite,
irmã
da
Razão
e
irmã
da
Morte,
Quantas
vezes
tenho
eu
interrogado
Teu
verbo,
teu
oráculo
sagrado,
Confidente
e
intérprete
da
Sorte!
Aonde
são
teus
sóis,
como
coorte
De
almas
inquietas,
que
conduz
o
Fado?
E
o
homem
porque
vaga
desolado
E
em
vão
busca
a
certeza
que
o
conforte?
Mas,
na
pompa
de
imenso
funeral,
Muda,
a
noite,
sinistra
e
triunfal,
Passa
volvendo
as
horas
vagarosas...
É
tudo,
em
torno
a
mim,
dúvida
e
luto;
E,
perdido
num
sonho
imenso,
escuto
O
suspiro
das
coisas
tenebrosas...
Antero
de
Quental
Sonho
Sonhei
-
nem
sempre
o
sonho
é
coisa
vã
-
Que
um
vento
me
levava
arrebatado,
Através
desse
espaço
constelado
Onde
uma
aurora
eterna
ri
louçã...
As
estrelas,
que
guardam
a
manhã,
Ao
verem-me
passar
triste
e
calado,
Olhavam-me
e
diziam
com
cuidado:
Onde
está,
pobre
amigo,
a
nossa
irmã?
Mas
eu
baixava
os
olhos,
receoso
Que
traíssem
as
grandes
mágoas
minhas,
E
passava
furtivo
e
silencioso,
Nem
ousava
contar-lhes,
às
estrelas,
Contar
às
tuas
puras
irmãzinhas
Quanto
és
falsa,
meu
bem,
e
indigna
delas!
Antero
de
Quental
Transcedentalismo
Já
sossega,
depois
de
tanta
luta,
Já
me
descansa
em
paz
o
coração.
Caí
na
conta,
enfim,
de
quanto
é
vão
O
bem
que
ao
Mundo
e
à
Sorte
se
disputa.
Penetrando,
com
fronte
não
enxuta,
No
sacrário
do
templo
da
Ilusão,
Só
encontrei,
com
dor
e
confusão,
Trevas
e
pó,
uma
matéria
bruta...
Não
é
no
vasto
Mundo
-
por
imenso
Que
ele
pareça
à
nossa
mocidade
-
Que
a
alma
sacia
o
seu
desejo
intenso...
Na
esfera
do
invisível,
do
intangível,
Sobre
desertos,
vácuo,
soledade,
Voa
e
paira
o
espírito
impassível!
Antero
de
Quental
O
Palácio
da
Ventura
Sonho
que
sou
um
cavaleiro
andante.
Por
desertos,
por
sóis,
por
noite
escura,
Paladino
do
amor,
busco
anelante
O
palácio
encantado
da
Ventura!
Mas
já
desmaio,
exausto
e
vacilante,
Quebrada
a
espada
já,
rota
a
armadura...
E
eis
que
súbito
o
avisto,
fulgurante
Na
sua
pompa
e
aérea
formosura!
Com
grandes
golpes
bato
à
porta
e
brado:
Eu
sou
o
Vagabundo,
o
Deserdado...
Abri-vos,
portas
de
ouro,
ante
meus
ais!
Abrem-se
as
portas
d'ouro
com
fragor...
Mas
dentro
encontro
só,
cheio
de
dor,
Silêncio
e
escuridão
-
e
nada
mais!
Antero
de
Quental
Hino
à
Razão
Razão,
irmã
do
Amor
e
da
Justiça,
Mais
uma
vez
escuta
a
minha
prece.
É
a
voz
dum
coração
que
te
apetece,
Duma
alma
livre
só
a
ti
submissa.
Por
ti
é
que
a
poeira
movediça
De
astros,
sóis
e
mundos
permanece;
E
é
por
ti
que
a
virtude
prevalece,
E
a
flor
do
heroísmo
medra
e
viça.
Por
ti,
na
arena
trágica,
as
nações
buscam
a
liberdade
entre
clarões;
e
os
que
olham
o
futuro
e
cismam,
mudos,
Por
ti
podem
sofrer
e
não
se
abatem,
Mãe
de
filhos
robustos
que
combatem
Tendo
o
teu
nome
escrito
em
seus
escudos!
Antero
de
Quental