
JÓIA
Rommel Werneck
O vaso de alabastro e de oferendas
Dedicado ao supremo deus Sol: Febo...
''Eu te dediquei mil flores e prendas,
Pálido virgem, lânguido mancebo! ''
Augusta forma, fino vaso helênico,
Obra de arte perfeita e tão brilhante...
'' O teu corpo expressivo, belo e cênico
Brilha perfeitamente, casto amante! ''
O vaso pagão, jóia das grandezas,
Do qual o povo longínquo se serviu,
Louvado é por museus priscos, tristonhos....
'' Mas teu corpo que nunca se sentiu,
Ícone da pureza das purezas,
Só por mim é adorado em doces sonhos! ''
ANTES, AGORA E SEMPRE
Quaresmeira de meu triste jardim,
Fincaste em mim inúmeras raízes,
Mas deixaste também mil cicatrizes,
Rugas que jamais, nunca terão fim.
Tronco magro que muito me fascina,
Tornando a vida suja e macilenta,
Somente a tua seiva me sustenta!
Somente tu és pulcra e grã-divina...
Antes, agora e sempre, só chorando...
Antes num quarto pálido e sem luz...
Agora acorrentado numa cruz...
Sempre e sempre, estará a boca sedenta
Gemendo unicamente um grito brando:
Somente a tua seiva me sustenta!
http://www.youtube.com/watch?v=-PmTO_aQhEM

MEU PASSADO
''Abro a janela, quanta luz...'' Rinaldo Gissoni
Algumas vezes, ponho-me à janela
Serenamente, toca-me uma luz...
Algo azul, bom ardor que me seduz!
Verdadeira lembrança meiga e bela.
Vários seres desfilam para mim.
Passam leves, sutis e evanescentes...
Cravos lívidos, mortos, displicentes
Que brotam neste meu triste jardim...
Em ti, janela, quanto medo e horror!
Quanta distância, quanta dor, maldade...
Tu te tornaste a imagem do pavor!
Por isto, quando eu vejo algum ser mágico
Que deveria ser felicidade,
Vejo o como este meu jardim é trágico!

SÓ.
Só! Sem bonança dança, luz, ó luz!
Na solidão perpétua do viver...
Só! Com medo segredo, cruz, ó cruz!
No luto eterno deste alvorecer...
Só! Sem amor calor, alguém, ó alguém!
Na necrópole lúgubre e perdida...
Só! Com sombra que assombra, alguém, ó alguém!
Na floresta sangüenta desta vida...
Só! Chorando exalando negro sangue,
Sangue horrendo, infeliz, morto e ruim,
Morto e ruim querendo amor e dó,
Dó e caritas, amor, tudo tão só.
Só! Sem cor, sem ninguém, sem luz, sem fim!
Afundando-se neste rubro mangue...

PROFECIA*
Um dia, tu estarás em pleno choro,
Sangrando em negras lágrimas a terra.
As almas do passado em grave coro,
Declararão a ti a mais suprema guerra.
O castelo dourado e azul morreu,
E a vida continua em triste pranto.
Eis aquilo que nunca se esqueceu,
E que conduz o azedo e amargo canto:
Um dia, tu estarás em forte grito
Que tingirá de luto o sonho pulcro
E assim se cumprirá a tal profecia.
O futuro será pra sempre aflito,
Nós que estamos em lúgubre agonia
Seremos então um único sepulcro.
*Texto vencedor (2º lugar )do IV Concurso do Vale das Sombras de 2009
Publicado no IV E-book do Vale das Sombras disponível gratuitamente em:
http://recantodasletras.uol.com.br/e-livros/1620380
Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=aTAJYIi_agw

LADO OBSCURO
Lado obscuro no dorso branco e nu...
Ah! Que carne vestida de alvo leite!
Nos teus músculos mui quero deleite.
A lascívia que lambe o lírio cru...
Tu tens asas sombrias de urubu...
Pois se tu me revelas claro enfeite,
Não, não há luz, portanto, que se deite
No tecido mais lúgubre que és tu!
Tudo corre entre sombras e mais luz...
O teu corpo de Cáucaso, algo impuro,
Ao terrível negrume me conduz!
Tu és nívea luxúria, sol no escuro,
O mais cândido luto que reluz.
Porque é vida raiada o lado obscuro!
Rommel Werneck
ANTOLOGIA ENCANTOS DO BRASIL, MADIO EDITORIAL

GEMA
De todas as pedras foste o meu rubi,
Imortal berilo, turquesa brilhante,
Meu perfeito amor, opala radiante,
A mais bela gema que assim conheci!
Receba os meus versos, ó meu diamante,
Safira sublime por quem eu morri,
Ímã, turmalina terrível que eu vi!
Levíssimo lápis lazúli, que amante!
Voraz ametista, meu topázio e jade,
A ágata que manda em mim e me sustenta!
Desde os tempos priscos, citrino adorado.
Eu te quero, meu ônix, meu namorado!
Única esmeralda, anel que me atormenta,
Símbolo da pérola felicidade!
Rommel Werneck
ANTOLOGIA PÁGINAS VAZIAS, MADIO EDITORA
