Ode a Brasília.
Oleg Andréev Almeida


Brasília...
Cidade festiva, cidade tristonha,
cidade de siglas e algarismos,
de pleitos, escândalos e portarias,
tulipa de ferro plantada no meu coração.

Brasília...
Cidade sem raça, morena e branca,
cidade dos grandes chefões e pequenos ciclistas,
em cujo falar misturou-se o “erre” do Sul com o “tê” nordestino,
cidade de sonhos e pesadelos,
cidade da gente.

Vós fostes severa comigo, Brasília:
brigastes por nada,
servistes-me pratos azedos,
fizestes com que me sentisse bastardo
no meio dos filhos legítimos vossos,
porém não untastes com fel minhas falas baldias!

Quem sois para mim:
a menina que vende paçoca nas ruas;
a moça gastando três contos na ida pro Plano,
três contos na volta dali;
a mulher, cuja vida seria um filme francês,
se não fosse verdade?
Quem sois: minha prima, irmã ou madrasta?
Não sei, realmente não sei;
moraria em outro lugar, se soubesse!

Quem sou para vós:
forasteiro sem eira nem beira,
bichinho exótico,
homem que, lendo o “Correio”, não perde frieza,
caçula que tanto amais?
Não sabeis...
Se soubésseis,
talvez me tivésseis tratado de outra maneira,
mais branda e menos sincera.

Então, somos quites, Brasília,
cidade alheia, cidade querida,
pois, feitas as contas,
merece favores mundanos e graças divinas
quem anda descalço por pedras em gume;
aqueles que usam coturnos, pisando o capim, desmerecem.
E pelo rigor com o qual me curastes de vãs ilusões,
ensinando o moral dos pioneiros,
eu fico-vos grato, Brasília,
meu duro amor!


Cá no meu quarto semivazio,

à toa,
passo as tardes de julho abafadiças,
uma por uma.
Sentado na cama ou numa poltrona de palha,
leio Anacreonte.
Do alto andar, em que moro, vê-se
toda a cidade batida pelo mormaço:
míseros bairros e bairros de luxo 
amalgamados,
vielas tortas e alamedas que dormem 
a mesma sesta. 
Vindos de fora, 
o cheiro meloso das flores 
e o zunido das moscas 
unem-se as estrofes do velho bardo;
volta e meia,
berra, embaixo da minha janela, um asno desemperrado,
e apregoa o dono dele:
—Água, ó gente! Água! y. 
Quase não saio de casa — iria aonde? 
Feias são as hetairas daqui, 
além de caras;
nada de novo, há meses, no circo rola 
nem no teatro;
fazem-se as palestras de jeito
que dói escutá-las.
Fico, pois, lendo sem pressa;
o vinho grego, dos raros,
que me fornecem uns traficantes,
está na mesa;
pede, maldito, para regar com ele
a minha ceia de sempre,
batata e peixe frito.

 

 

 

 


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