DOM DE MENDIGO

Encontrei um verso, já bem desgastado
Perdendo o viço na alma de um mendigo,
Ferido,
Mas ainda iludido,
Diz que ladeou a vida através de porta sem trinco.
Sem saber escrever, compôs odes em delírios,
Em ladrilhos.
Sonhava insone, comer pão e colher lírios.
Assoviava árias tristes aos donos do futuro,
Como se fosse ele, uma cena de teatro
Todo em trapo,
Numa languidez esperançosa, de fino trato.
Tinha nas mãos calos e marcas de adeus,
Seu catre não tinha paixão nem encantos,
E nos cantos,
Coisinhas e andrajos e pedaços de santos.
Ao léu, seu dia não tinha faina, e sim orações
De um viver sem amores mesquinhos,
Sem torvelinhos,
E hoje, a dividir migalhas com passarinhos.
Ele era um verso de humilde pomposidade,
Igual borboleta que não conhece espelhos.
De joelhos
Tenta descortinar o humano sem rodeios.




CRUZ NA ESTRADA

Uma cruz na estrada
Não se parece em nada
Com a grande viagem
Que reproduz em imagem
O que na cruz estraga

Uma flor rasgada
Com história estampada
Nesta cruz sem brisa
O que a vida não reprisa
Numa dor desamparada

Esta cruz devassa
Estuga um destino que passa
Fatalidade matou de dor
Por imprudência de amor
Uma história engraça

Desolada cruz infeliz
Ao viajor nada diz
Mas deixa marca desdita
No peito daquele que medita 
Aquilo que a vida não prediz



FLORES

As flores não nasceram para ser pisadas.
Arcaica a idéia de jardins abandonados,
Não habitados.
Jardins existem
Onde as sementes caem de mãos dadas,
E os pés acolhem os que não desistem.

As flores morrem caladas e solitárias.
Os homens sofrem mesmo sem dor.
Fazem terror,
Desarmam a vida,
Inclementes, juntam-se aos iludidos párias, 
Que esqueceram as flores na despedida.

As flores perfumam a prenhez da terra.
Aos caprichos de lágrimas e orvalhos.
Brotam carvalhos,
Sobre a quietude,
Onde o amor nunca se armou para a guerra,
Nem o instinto da fera perdeu a virtude.

As flores são serenas na vida e na morte.
Nas núpcias são brancas, na morte é betume
Alheio é o perfume,
A ornar a eternidade,
Para galgar em cores o último desígnio da sorte.
Com pesar, num buquê, sem escolher a idade.

As flores se deleitam num abraço sincero.
Nunca no crime em meio a páginas envelhecidas,
Sem ser suicidas,
Nunca pecaminosas.
Espreitando um fervoroso olhar singelo,
Numa amálgama fortuna de rosas.



DISTÂNCIA

Toda a distância é obscura,
Trôpega, senil e escura.
Faz do amor uma amargura,
Das saudades uma tortura.

Aliciada à espera platônica,
Deixa a dúvida sem tônica,
Desterra a ira sinônima,
De uma saga afônica.

É quando se perde a cadência,
Da esperança sem evidência,
E o tempo vai à falência.

E sempre que os pés param,
Veem-se os sonhos que voaram,
E nem os deuses notaram.



COMO CRIAR BORBOLETAS

Apanhe um sonho qualquer
No mundo onde estiver
E a ele adicione a paz
Não fuja das bruxas
Nem se esconda do instante
Porque não está distante
A humilde simplicidade de ser

Coma um doce de festa
Feche os olhos em fresta
E diga sim ao teu prazer
Saboreia os espaços da vida
Porque a brisa não tem refrão
Compreenda teu coração
Só assim sairás do casulo

Se conheces as flores
Então não sentirás tantas dores
Teça asas para toda existência
E rogue ao destino para que elas não se desprendam
Aprenda a colorir a distância
Pois parte dela é tolerância
Então sim, voarás

Adicione ao léu teu futuro
Assim em teu lar não existirá muro
Persiga uma farsa, um sonho
Esconda-te na fantasia
E quando decifrares as cores
Descobrirás malgrado, a diferença dos sabores
Saberás que limites não são doces imortais

Apanhe um sopro de luz
Igual a estrela que te seduz
Bem no imo de todas as igualdades
Retenha toda audácia do amor
E agora, que o vôo já alçastes
Mostre ao Universo o que criastes
E por piedade, não fuja desta árvore

 

 

 


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