Família Cósmica
Maria João Brito de Sousa
Astros deste universo, em cada céu
Há outros intervalos por explorar
E um cometa sempre a divagar
Em busca do lugar onde nasceu.
Miríades de estrelas Deus nos deu,
Miríades de sóis por encontrar
Nesse espaço longínquo onde sonhar
Nos leva muito além de Prometeu.
Lá longe, muito longe, onde é possível
Imaginar o fim ao Infinito
Onde infinitamente continua
O corpo da matéria perecível,
Aonde até o sonho é interdito
A nós filhos do Sol, irmãos da Lua…
Espaço-Tempo
Maria João Brito de Sousa
Nas horas irreais que aqui te prendem
A este espaço-tempo em que acreditas
Imaginas-te “ser”, pois coabitas
Com mundos paralelos que te entendem.
Imaginas-te ser o que te vendem
Os velhos companheiros das desditas!
És como marioneta presa a fitas
Sem sequer perceber que elas te mentem...
Outros tempos e espaços, simultâneos,
Partilham essas horas que conheces
Sem que saibas sentir que estão ali...
E todos nos quedamos, consentâneos!
Viver as horas breves que tu esqueces
É viver por metade o que eu vivi...
Cativeiros
Maria João Brito de Sousa
Como meridiano de mulher
Na divisão do Ser em hemisférios,
Sou a imponderável dos mistérios
E só falo de mim a quem quiser.
Falo a quem entender, a quem souber
Encontrar em si mesmo esses impérios
Cansados da prisão dos cemitérios
Onde a vulgaridade os quis prender.
Falo-vos desse mundo antes do Tempo
E falo dos futuros infinitos
Justificando o Universo inteiro.
Falo-vos de um maior entendimento
E tudo o que encontrardes nestes escritos
Será o que aprendi no cativeiro…
Ao Longo de Mim
Maria João Brito de Sousa
Nesse “ao longo de mim” que te ofereci
No breve-imenso instante em que fui tua,
Eu, mulher de ninguém, irmã da lua,
Despojei-me de mim p`ra estar em ti.
Foi ao longo de mim que recebi
O que de ti nasceu em mim que, nua,
Calava a solidão absurda e crua
Das horas de cantar que então perdi.
Tu, que ao longo de mim nunca encontraste
Aquilo que “era” em mim pr`além de mim
E que assim te perdeste do meu eu,
Vê que, ao longo de mim, também mudaste
E se não me encontraste até ao fim
Foi decerto por teres um fim só teu…
A CASA DO POETA
Maria João Brito de Sousa
A casa do Poeta é oficina,
Estaleiro de grafismos e de ideias,
Volúvel como o vento nas areias,
Imensa, embora sendo pequenina...
Tem algo que nos prende, nos fascina,
Como se fosse urdida por sereias
Que nela vão tecendo as suas teias
E nos deixam ouvir a voz divina...
A casa do poeta, como a vida,
É cheia de surpresas, novidades,
Mas não tem a ambição de ser maior
E, mesmo nunca estando prevenida,
Tem sempre um lugarzinho p`rás saudades
Que o tempo vai criando em seu redor...
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