Onde te tenho
Jaak Bosmans
Na expansão do meu inconsciente
Tenho-te sempre em três níveis
O abstrato,
Que me inspira
O imaginário,
Que te constrói
O real,
Que nos separa
Jaak Bosmans 21-02-10




Atelier dos inacabados
Perfeita foste, no aroma de perfumes e aquarelas
Onde cada beijo nos pertencia em odores e desejos
Para em invisíveis telas te refazer dos momentos
Vividos num passado triste de apenas rascunho.
Pincelei em traços inquietantes e imaginários,
Sempre o alvorecer de mais ternuras e sabores.
Renovando a cada aurora o real de nossos sonhos,
Sempre sublimes, num exalar de mais perfumes.
Mas na tua inconstante beleza inacabada e fugidia,
Deste a preferência ao rascunho do teu passado.
Teu perfume e cores vivas me abandonaram
Diante da tela invisível de mais um puro engano.
Tarde percebi tua outra face, e não contive lágrimas,
Que caiam suave sobre o retrato pintado.
E mesmo em constantes e delicados retoques,
Não alcancei mais o nosso primeiro alvorecer.
Ficou assim, no velho atelier dos inacabados
Apenas o aroma se evaporando sem cores
Em pincéis e tintas endurecidos pelo tempo,
Dos sonhos em rabiscos incolores.
E a entrada suave da luz do último alvorecer
Anunciou solene em toque de recolher
Todos os sonhos, desejos e prazeres
Expostos agora na galeria dos inacabados.
Jaak Bosmans 31-05-09




Corpo sonoro
Em teu corpo negro de braços tracejados
Silencia agora todas as minhas canções.
Perdi o ritmo, atravessei nas pausas.
Desafinei os acordes da velha canção.
Não era o blues quem reclamava.
Os improvisos de solos tristes.
Eram lágrimas sobre as cordas tensas.
Delays e distorções sobre a cor da pele.
Colei assim mais ainda o teu corpo ao meu,
Para no silêncio refazer nosso encontro.
E num sorriso de belas notas amplificadas,
Voltaste a vibrar teu corpo ao toque dos meus dedos.
Jaak Bosmans 17-03-09




No encontro de nós dois
No encontro de nós dois
Despi-me das armaduras e me revesti de desapegos
Não te queria. Pra que te ter?
No encontro de nós dois era importante que continuássemos dois
Não encontramos pedaços perdidos de nós
Encontramos inteiros que podemos amar.
No encontro de nós dois
Abriu-se uma fenda na paisagem daquele por de sol
Não te queria em despedidas nem mesmo em reencontros
Cada amanhecer me pertencia e eu te oferecia em bandejas,
Ainda na cama, os primeiros raios da luz.
No encontro de nós dois
Teve lua, teares de estrelas, e convite pra ser feliz.
Beijos com um só riso, e me aconcheguei logo, em quase nada.
E que era tudo.
Me desfiz em lágrimas, e colhi-as nas mãos,
Só pra jogar pro alto e vê-las se transformando em brilhos.
No encontro de nós dois
Grandes cavalos alados e pequenas gotas de vento
Transformavam cada palavra em vestimentas de ternura.
Foi assim que se deu em mágicas, aventuras, e sonhos
O encontro de nós dois.
Jaak Bosmans




DÚVIDA
Não sei o que é maior
Se o silêncio dos meus gritos
Ou os gritos do meu silêncio.
Jaak Bosmans 3-09-2009