ALICE
(André L. Soares)
.
Alice, embebida de pureza,
há poucas horas, chegara ao planeta,
ainda estava imune à maldade,
quando as notícias velozes
rasgaram-lhe as têmporas.

Lágrimas verdes vertendo das retinas,
ponta de dor aguda a lhe fisgar o peito,
grito de clave de sol, preso à garganta,
ela então, vê a santa desnuda
sob a luz fria do cotidiano,...
momento em que o belo pintou-se de breu
(sabor amargo de inocência trincada).

Cansada, recolhe-se ao quarto,
a proteger-se dos cristais e plasmas.
Após sangrar lembranças, cerra as pálpebras,
chora e soluça, outra vez, sozinha.
Por fim, Alice adormeceu!
Em seus sonhos ainda existem flores,
a água e a verdade parecem cristalinas
e até o coração do homem é bom.

Acanhado, procurei algo
que a fizesse sentir-se melhor
quando acordasse;
tentei criar um origami, mas já era tarde,... 
...eu só tinha em mãos, a realidade.



BICHO-DO-MATO
(André L. Soares)
.
Desde cedo deixei
o medo de lado
e me lancei no encalço
dessa lida traiçoeira;
arrebentando elos, cordas,
cabeças, cabaços,
portas, taramelas, cancelas,
porteiras.

Só desejo o espaço livre
no vasto da estrada,
com a liberdade própria
dos bichos-do-mato;
dispensando tudo
que me seja um fardo,
salto de peito aberto
pelas cachoeiras.

Não divido meus caminhos
entre o bem e o mal;
tampouco temo a hora
da flecha certeira.

Sou avesso a qualquer coisa
que imponha limites;
desconheço as leis,
os reis, as fronteiras;
vim ao mundo pelo belo
que a vida oferta:
– o mar, o pôr-do-sol, a areia,
os rabos-de-saia,...
a loucura sensual
do amor à lua-cheia!

Não divido meus caminhos
entre o bem e o mal;
tampouco temo a hora
da bala certeira.


DIONÍSIO
(André L. Soares)
.
Não temo a loucura arriscada
que parece acompanhar tudo que é novo.
O que mais me assusta é a inércia da certeza,
que insiste em macular de tédio o amanhã,...
pelo extraordinário que inexiste
nas coisas seguras.

Quão insípidas são essas horas
todas já tão planejadas,
esses passos firmes, por estradas retas,
acinzentando o mundo com prévios resultados.

Sei que posso estar errado,...
mas prefiro o inusitado
perigo das curvas.


FUGINDO NUMA TELA DE VAN GOGH
(André L. Soares)
.
Cansado das vãs teorias,
busco a letargia
dos alienados felizes.
Não quero saber da política,
viro as costas ao feio
e à hipocrisia.
Entrego-me à incoerência;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
.
Chega de tantas mentiras,
da esperança perdida
da pesada leitura.
Fico à margem dos dias,
da falsa engrenagem
das tristes notícias.
Cedo-me à ignorância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
.
Farto das ideologias,
dos beijos de Judas,
das falas prolixas;
renego as tramas noturnas,
as turvas matizes
e as falácias da vida.
Rendo-me à intolerância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!


HUMANO
(André L. Soares)
.
Queria te falar sobre estrelas,
porém, desconheço as alturas.
Pensei em te ofertar minha pureza,
mas quem sou eu...
se cresci livre pelas ruas.

Pudera eu te contar boas histórias,
descrever uma vida sem agruras.
Sonhei em te cobrir de jóias,
mas, sou plebeu...
nunca tive ou quis alguma.

Bom se eu coubesse em teus sonhos
na exatidão da ordenada com abscissa.
Tentei ser só alma e coração,
juro, não deu...
sou de aço, pedra e fúrias.

Quisera eu não fosse assim, só erros
e a verdade brotasse em meus lábios.
Talvez, eu possa te salvar do tédio,
mas, se nem nisso...
faz um esforço e me perdoa. 

É que sou tão muito humano
– bem-dotado... de defeitos –
minha perfeição é sempre
ser complexo imperfeito.
E apesar desse jeito insensato
só uma coisa não aceito...
– ah isso não!!! –
é que duvides que te amo.




INÓPIA
(André L. Soares)
.
Nesse tempo,
em que a barbárie é bomba,
qualquer sobra de virtude
é sombra...
da gigantesca indiferença
a espalhar-se sob o sol.
.
Nesses dias,
em que ninguém se encontra,
toda amostra de amor
assombra...
a nós, 
cada vez mais acostumados
a passar a vida sós.



OLHOS FELIZES
(André L. Soares)
.
Aventureiro...
o meu beijo é Marco Pólo
em busca de tuas Ilhas Virgens,
percorrendo,... absorto,...
pêlos e poros desse corpo,
até que sintas vertigens,...
enquanto minhas retinas
– hábeis atrizes –
fingem não ver em teu rosto
o brilho (in)comum aos olhos...
quando felizes.

 

 

 

 


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