MUNDO AZEDO
(Poema Sintipo VII)
Sandra Fayad
Contemplo da janela as plantinhas da horta,
Cultivadas com adubo, água e natureza morta.
Do mercado, em plásticos, vem o que se come,
Embalado chega o alimento que mata... a fome.
É careta cultivar beladona, tomate, alfazema...
Do fabricante, devo saber nome e sobrenome,
Contabiliza-me como refém real, que consome.
Vivo ou morto, sou um número. É o que importa.
Fácil! Prático! Somos cobaias (eu e minha aorta),
No shopping, à beira-mar ou sobre o rochedo.
JANEIRO 2008
* Forma poética criada pelo poeta português Fernando Oliveira, o Ferool: "...o poema síntipo é composto, de: um título, mais duas quadras e um verso para arrematar, que deve rimar com o título, assim como um verso solto que não rime com o tema, mas que lhe siga os contornos. As duas quadras devem rimar: a primeira em decrescendo e, a segunda em crescendo, os versos rimados devem ter a mesma energia fónica, de preferência com rimas ricas. O verso solto sem rima prefigura a base do poema, quando este é escrito numa folha e esta é dobrada em duas partes, verificarão que todos os versos casam perfeitamente em termos de rimaria. ..”
CIDADÃ
Sandra Fayad
Tenho RG, CPF, Título de Eleitor,
Plano de Saúde, Vínculo Empregatício.
Estou no sistema.
Sou cidadã!
Namorei, noivei, casei,
Mas bom mesmo é ter um grande amor
(Impossível...).
Fumei para estar na moda. Virou vício,
Que eliminei para estar na moda.
De cigarro tomei pavor.
Fui fumacê apaixonada!
Cidadã!
Abri conta no Banco Oficial
Pra receber meu salário
Que mal dá pra comprar
Passes e PF universitário.
O Banco Particular,
Querendo me conquistar,
Ofereceu-me cartão de crédito
Pra acabar de me ferrar.
Sou refém do lucro fácil!
Cidarréfem!
Entrei no consórcio de automóveis
Para realizar o sonho dourado:
Ter um fusca zero
Com painel perfumado.
Paguei sessenta meses,
Mas consegui entrar e sair
(Duas vezes!).
Assinei Quatro Rodas.
Fiz financiamento do BNH
Que acabou antes da dívida acabar.
Incendiaram
O Ministério da Habitação
(Estive lá em reunião)
Que dó! Que fogaréu! Queimaram tudo:
Papelada, fitas de computação.
Sou otária!
Cidadotária!
Comprei roupas, bicicleta, patins
Jaqueta, relógio, maquiagem importada,
Bugiganga americana e chinesa,
Perfume francês: forte pra dedéu!
Eletrônicos fabricados lá nos confins.
Só para dar o que falar, ser admirada.
Americanizada!!!
Sou acéfala com véu!
Sou Cidadéu!
Sigo à risca a Constituição
Leis, decretos, regulamentos.
Respeito os dogmas da religião.
É bem verdade que desobedeci
Questionei em certos momentos,
Mas me penitenciei.
Ninguém é santo!
Sou Cidapura!
Presto contas pro Leão
De tudo que ele me garfa.
Todo ano respondo não:
Não subiu meu patrimônio!
Não caíram minhas despesas!
Não fiz pacto com o demônio,
Não traí, não menti, não roubei,
Nem comi mais sobremesas
Sou pastel!
Cidadela!
Ah, como eu queria ter nascido
Em uma aldeia tupi,
Lá pros lados de Paratins,
Na foz do Maicí,
Em meio a guerreiros bravos;
Ou lá na terra dos meus avós,
Onde enfrentam a guerra,
Mas não se tornam escravos.
Se eu fosse menos cidadã,
Não usaria calcinha, nem sutiã
Ou
Me penitenciaria ...
Durante o Ramadã.
Bsb, 26/03/2008
MINHA CANONIZAÇÃO
Sandra Fayad
Germinar, brotar, NASCER!
Crescer, aparecer. Obstáculos? Vencer!
É necessário vingar!
Vingou? Que bom!
Agora é sair por aí a lutar para...
S o b r e v i v e r!
Superar obstáculos, disputar um lugar.
Um lugar? Que lugar?
Um lugar ao sol em meio às trevas...
Trevas? E depois?
Depois é fazer, construir, a p o s s a r – s e
Daquilo que puder ou que de graça vier
Ou do que chegar nos braços do poder
Poder? Pra que poder?
Para ter! Ter mais fácil! Sem fazer força...
Forçar! Vencer! T E R!!!
Para usar?
É! Para usar.
Mas ... é muito!
Deixar para os que ficam.
O que!?
Uma demanda... um dinossauro ... um descaminho ...
Morrer bem morrido, envolto em sedas.
E levar para o ninho ... Nada!
Nem o que plantamos, nem o que colhemos ...
A menos que eu seja ... c a n o n i z a d a.
E n c i c l o p e d i a d a!
Bsb, 21/03/2008