Matéria bruta
Por Romério Rômulo


rio acima duas canções se fazem.
alargado meu peito desfalece.
que arcos hão de vir, sombriamente,
falar, cerrado puro, do meu lastro?

e se os risonhos da manhã me deceparem?
acaso sou poesia ou sou manhã?
acaso uma nascente é tão nascente
que só se faça romper pela clausura?

vou de saberes, que saberes estes
são uivos que caminho pelas águas
e águas são de um sólido mais brusco
que desfalecem os ranços já chegados.
cauda selvagem, se me sobra toda
a vida por parir mais que selvagem.

(raso de delírio: o meu cão morto)

ancestral perverso desta fuga,
arredondada paisagem do inferno,
este caminho é pleno de relatos.

saber-lhe os uivos, que mais for, saber
o elo da montanha que lhe brusca
um último estandarte desta voz.

que mais trazer o pulso, uma verdade
corrente noite, ilustre madrugada,
um passo de caminho, uma afoiteza.
tonitroamentos todos são solenes
uivos relatados, que outros uivos
só podem rastejar num corpo alado.

(são uivos relatados)

poeta que de minas faz seu canto
vou revelar aquela face rubra
de mais um sol antecipado noite.

trazer crateras de montanha, mar
de minérios que faz hortelã
ter uma sabor tomado por ausência.
um verdejante arco de boi, traste
de, no cerrado, dente mudo, ver
na sua carne os rasgos desta gente.

que animal há de viver somente
no exercício fácil do resgate?
que montanha rasgar, tão inimiga,
se sobra o vácuo puro do mistério?

minas mais que sabor: traição, penúria,
é mais que o fácil boi dolente
remansado de pragas pelos pêlos.

é tão mais, mais que a barba bisavó
de inácios que me soam serem eu.

inesgotável minas, uns deuses
lhe ampliaram a face-toda-água.


(96, janeiro)


duelo enfastiado, tão poesia
sem rumo dos corpos que se atrelam
ao vento seco, à dura memória do cerrado.
mais ver o lastro de carne, pisoteio
de facões arruelados, sangue vertente
de guelas.
- farpas do vento não contêm as noites.-
cada corpo, bambu, se lambe
de terra, ao saber o outro se aproxima.

sol recolhe carnes, ossos, telhas lambidas
da absurda imagem.


(farpas do verbo não contêm as noites)

buscar os bois do meu campo, uivo, latido,
guardar os animais da memória,
latir uma cavalo potro ressequido,
levantar a água esguia do poço,
saber uns baldes de tanto cansaço.

tudo é ausência de cerrado.

avós de diamantes, tesouros monásticos,
assembléias de escravos, podem ser razão
de minha ausência.

uns valos de bois, umas manias de cavalo
chucro,
um atar de cachorro louco.

luzes e bois, fundidos, se rebatem.

(levantar poço e água)

um corpo pode ser muito tamanho
se lhe carregam um lastro tão maior
que o tempo. lhe devora as entranhas
o nu ressequido, extirpado, nuvem
de gafanhotos da noite.

tamanho corpo, nu, pode ser noite,
se a alma rasa sobrar só em calúnia,
se a boca nua se extirpar em pedra,
se o rasgo do ouvido for espaço.

(extirpar o cancro salgado do olho)


declaro:

carrego no braço os meus rebanhos,
o cabresto de toda adjacência,
a sobra mais latente de uma língua.
te dou de mim o que couber tua mão.

(declaro aqui de mim)

terras e águas, meu ávido destino,
lusco-fusco de cansaço na noite.
belzebus tardios lufando prumos,
estandarte de rito feito treva.
se, babilônia no peito, os azares
-fatídicos e atávicos azares-
acalantam os poços da memória,
só o banal do vento tem destino.

saber mais, se o tempo só, em água,
percorre o assobio da treva.
um ananás alimenta aves do escuro,
um tanque de melados devaneia.

- quando carne se revela em açúcares,
a pele do homem, toda, é uma noite.

(toda pele do homem)

recarregar de asperezas o corpo.
a manhã faz tempo ser espinho,
se outra novela não disser do outono.
quando, cruel viela, direi que outro
foi o campo vital da minha dúvida?
quando, noite passada, farei sono
ser mais que soturnez?


tanto mundo se mostra pedra
se facas regateiam nacos.

(a musa carece de minguante)

1.
aquele mar de fendas que te lasca
o corpo de sabidas substâncias
tem um rouco tinir de asa morta.

2.
velada montanha jaz rio adentro.
seus peixes de hortelã são um ofício
das telas.

(paisagem)

1.
túrgida e ventada manhã,
toda ela acesa.
duro ranço da noite. em verdade
martelos são macios se levados
ao fogo da paixão e perquiridos.

2.
e produzir umas clarezas tais
que não se faça ambigüidade equivalente.
martelar o afoito do dia,
reduzir a quirera da noite no sopapo.
rasgar latejamento, sangue podre.

se sobra escuridão, que assim seja!


(destroncamentos)

sou torto
e minha cor, azeda.
calo e punhal rechaçam toda mágoa.

(astro)

se as entranhas da terra te atropelam,
resta o veio da manhã, a pedra,
o dedilhado de montanha que te lambe.
falta tua memória de noite, teu fazer
de nuvem, tua viagem de eito.


aços convirão sobre teus ombros.
feroz, manhã há de lamber tua boca.

(aços tua viagem)


o ato de viver cabe bravura
se o corpo, fel, resguarda da morada
o cálcio, a teta, a gana, o consistente
olho, brilho, o rastro da fumaça,
a lasca da madeira, caule.

quando ser, o fel da alma
tem douto vinho da maledicência;
a rusga da noite,
traz os infernos da entranha.

quando caber é ato de vaidade,
se tua mão afaga a outra mão?
se teu calo escorrega no desastre
do olho que te fala por paixões?
quantos de nós podem rasgar o vale
da agonia devorada?
quantos, sangue no corpo, trazem o embate
da liberdade no olho?

se, sendo poucos, somos tantos. quantos.

(se teu calo escorrega no desastre do olho)

Sou, por meus inteiros, vários.
minhas frações se fazem de repente.
o olho, de inteiro e faces,
disseca os cacos da manhã (lavada).
múltipla mão, da luz, me regurgita
uma estranha verdade, um denso espanto.

(minha doce face fuzilada)

uma poesia deserta, texto de pedra e secura.
poesia de ferreiro: metal e martelo.
uma poesia brasa candente. cozer tudo,
ato do verso, dure tanto ou nada.


(abertura)

“a carne é reticente; a noite cega.” (r.r.)

 

 

 


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