Glosa
“Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
o que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...”1
Olavo Bilac

“VERUM FACERE”2

Por Renã Leite Pontes

“Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava”
o sofrimento dado ao teu maior Profeta:
espinho de aflição, a cruz fez-se repleta
da dor, que de improviso, em graça transmutava...

Viver publicamente o que temera - o oculto,
“o que a boca não diz, o que a mão não escreve”:
quem dera ao vil malvado uma carga tão leve,
reserva ao bom semita aquele “lar” (sepulto).

Por mais que o tempo passe ou que por Deus se intente
curar a chaga viva... escura, avessa a neve:
“ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve”
virá manchar a neve aquele sangue quente...

Só um valor resiste enquanto ebule a lava:
o céu não fugirá à voz que se levanta!
mas, tu que declinou esta Verdade Santa,
“olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...”

1 - Quadra extraída de um soneto de Olavo Bilac intitulado 
“Inania Verba”, que traduzido do Latim significa: palavras fúteis.
2 - Em Latim, significa: fazer verdadeiro.

 

 


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