Diálogo com o tempo
Regina Mas

Poesia feita após uma visita a uma pessoa querida 
que começava um processo de Alzheimer

Ó tempo!

Que mistério é esse o teu,
Quando marchas sem descanso, 
Ignorando aflições
E desprezando lamentos?

Às vezes vais tão depressa
Que o presente logo, logo,
Se transforma em passado
Sem que possamos contê-lo...

Outras vezes tu és lento,
Te arrastas e te demoras,
Num passo quase indolente,
Em que o futuro não chega...

Nem sempre posso sentir-te
E ignoro teus passos...
Mas quando olho no espelho,
Tu vens logo e te apresentas...

Meus cabelos que eram fartos,
Tu os levaste contigo;
E os poucos que sobraram
Tu branqueaste ligeiro!

O viço de minha pele
Foi-se embora para sempre
E tu deixaste só rugas
Marcando tua passagem...

Para onde tu levaste
Todo o brilho de meus olhos?
Minhas carnes que eram firmes,
Tu massacraste de vez...

Chegaste te intrometendo
Até em meus pensamentos...
Fico perdida e misturo
O passado com o presente!

Ó tempo!

O que fizeste comigo?
Tornaste-me um estranho
E roubaste-me a beleza,
Transformando-me num velho!


Diga-me logo, ó tempo,
O que pretendes comigo?
Para onde vais levar-me
Em tua corrida insana?

Ó amigo!

Tenta aquietar tua alma
E não te zangues comigo,
Pois cumpro minha missão
Que é andar sem descanso...

O meu ritmo é um só
E se me vês vagaroso,
É que algo bem doído
Te ilude que parei.

Eu caminho num compasso,
Para frente e sem parar...
Tu deves ficar atento
Pra não me desperdiçar!

Eu jamais roubei-te nada,
Sem em troca dar-te algo...
Teus cabelos que eram fartos,
Dei a teus filhos e netos...

Dos teus olhos foi-se o brilho,
Mas na névoa que os encobre
Há imagens de uma vida
Que nunca se apagarão...

Se olhares bem as rugas
Tu verás que dentro delas
Eu deixei experiências,
Lembranças, sabedoria...

Ó tempo! 

Teu discurso não me anima,
Pois perdi a juventude,
Bem maior, que tu levaste
E não me devolverás!...

Ó amigo!

Escuta e presta atenção, 
Pois vou contar-te um segredo
Que é uma falha minha
Mas muito te ajudará...

Na corrida incessante,
Que é minha sina de algoz,
Vou envelhecendo corpos,
Mas deixo as almas em paz...

Procura olhar para dentro
Que verás ainda intocável
Tua alma de criança,
Brilhante, alegre, sem rugas...

Desperta-a com carinho...
Dá a mão a esta criança
E jamais a abandones,
Até o fim do caminho!...

Dezembro/1995
 

 

 


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