SUBLIMAÇÃO
Raymundo de Salles Brasil
Ela se despediu e nunca mais nos vimos,
Nunca mais nós trocamos um alô, sequer,
Faz tempo já, o tempo que brincamos e rimos,
Ela era um botão, longe de ser mulher,
E eu era um fedelho quando, os dois, sorrimos...
Despetalando aquela flor do mal-me-quer,
Pra ver se o nosso amor era coisa de primos,
Ou se tinha embutida outra coisa qualquer.
Hoje com meus botões, refletindo maduro,
Eu concluí que sim, era muito mais puro,
Era mais para santo o nosso amor fraterno.
Sem ter a marca vil dessa coisa carnal,
Ele se fez sublime, quase divinal,
Talvez, por isso mesmo, ele ficasse eterno.
23/11/07
REFLEXÃO
Raymundo de Salles Brasil
Tem sido a minha vida abençoada,
Muito mais, muito mais do que eu mereço;
Nunca fiz jus, na minha caminhada,
Às bênçãos recebidas, reconheço.
Setenta e quatro anos, e mais nada,
Passados quase em branco, eu envelheço,
Chegando quase ao fim da caminhada,
E mesmo assim Jesus pagou meu preço.
Não fora pelo seu tão grande apreço,
Que seria de mim neste momento,
Que completo tantos anos de tropeço,
Quem acharia em mim algum valor
A ponto de entregar-se ao sofrimento,
Para salvar um simples pecador?
31/08/07
A MÚSICA DA VIDA
Ao dedilhar a música da vida,
Neste velho instrumento empoeirado,
Ouço da infância, o som leve e dourado,
Que acorda cada corda envelhecida.
Trazendo o novo em som desafinado,
Logo depois, intrépida, atrevida,
Julgo escutar a voz bem percutida
Do moço – afoito, belo, iluminado!
E o tempo vai passando e eu vou tocando,
Imerso no meu sonho, delirando!...
Chego a sorrir na pauta percorrida;
Mas desperto ao final e me surpreendo,
Porque eu estou me ouvindo e estou me vendo
Tocando a marcha fúnebre da vida.