UM ROSTO
Paulo Monteiro


Parece-me que vejo no teu rosto 
o rosto das mulheres que sonhei 
e vivendo esse sonho me convenço 
o quanto de inverdade o mundo encerra. 

Se fosses na verdade o que imagino 
por certo que não foras a ilusão 
que os sentidos perversos me apresentam 
se a teu lado me ponho sismarento.

Quanto é falto o sentido e quanto é falho 
o sentimento que nos guarda o peito! 
Quanto, meu Deus, há de ilusório em nós, 

que mesmo sendo pó nos entendemos 
mais sábios do que somos – e por isso 
nos perdemos num rosto de mulher! 


MINHA LÍNGUA PORTUGUESA
Paulo Monteiro

Mistura de índio, de africano e luso,
ponta de lança e pata de cavalo 
usei para marcar o chão que cruzo 
e os limites da língua na qual falo. 

A lei e ferro impus também o uso 
deste idioma em que vivo por amá-lo 
ao que veio depois, quase de intruso, 
fugindo à fome que ia devorá-lo. 

De gaúcho me chamam. Não me engano 
co’a força do meu verbo e do meu braço, 
pois ao traçar o mapa americano 

eu cantava no idioma lusitano 
e arrastava canhões com o meu laço 
gritando palavrões em castelhano.


ETERNO RETORNO
Paulo Monteiro

enquanto este poema pequenino 
parece desafiar o mundo astuto 
eu vivo do meu susto afeito ao tema 
que aperto contra o peito 
antes que a terra me receba no seu ventre 

e por viver dessa contradição 
meu coração se afasta lentamente 
como a buscar a eterna des-razão 
do tempo em que eu já era o que não fui 

e assim escravo de mim mesmo 
escrevo minha própria história

no pó que sou e me eternizo 
no pó que um dia hei de ser 

e o ser eterno vir-a-ser há de guardar-me
serenamente no seu ventre e recolher-me 
ao eterno retorno simplesmente 
com a calma das coisas sem alarme


SARA
Paulo Monteiro
Á Sara Adalía Machado Monteiro


vejo em ti minha bisavó índia 
a cantar as saudades de meu bisavô guerreiro 
dedilhando as cordas 
que ela mesma fazia com tripas de carneiro 
na velha harpa 
única herança que lhe deixara a guerra contra o Paraguai
vejo em ti o mais belo presente 
que ganhei de aniversário 
e que me a segura a certeza 
de que hás de escrever 
os versos que teu bisavô deixou inéditos 
vejo em ti o mais belo poema 
que escrevi com apenas quatro letras

DO AMOR
Paulo Monteiro

teu corpo é suave como a pluma leve 
de um pintassilgo quando deixa o ninho 
e como uma avezinha mal-crescida 
procuras tonta as margens do caminho 

levo emplumada a mão que fina escreve 
busco prender teu corpo num delírio 
e foges sorumbática e aturdida 
como seu eu fosse víbora ou martírio 

depois cansada paras minha presa 
entregas-me teu corpo frio de medo 
e após refeita como uma ave ilesa 

adormeces na tarde e acordas cedo 
já sem frio já sem medo linda e dócil
começando um trinado no meu dedo

 

 


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