TERÁS AMADA A SABEDORIA
1. este é o corpo insubmisso e a bandeira do desejoque se debruça sobre as veigas do teu vagar
: se despejares a linfa com os gestos sagrados
saberás a minha virgindade no meu retiro
porque longos são os braços e as nossas águas.
2. como vieste e foste dona das certezas pontuais
: o sol não tem silêncios. havia as nuvens do silêncio e ventaste para que a montanha te crescesse nas entranhas. foste a ternura das árvores azuis que povoaram as lagoas. foste a aventura dos cansaços onde a madrugada doeu o umbigo das horas.
oh amada - toma nos teus lábios o orvalho
da ternura com a qual anunciamos a primavera.
3. sábio é quem descasca o silêncio
até à intimidade do som até ao insofrimento
e não ignora o mar tão perto. e não ignora
que os homens-rãs têm alvoradas como as asas
(oh amada empalmamos a noite com o pão
dos corpos e aprendo-te).
sábio é quem devora a seiva na lavra
dos sorrisos para molhar a vida
enquanto a mão desenha o nome dos dias
quando a manhã se despe (oh amada
encaminha-me na tua casa onde a fonte
tranquiliza a esperança
e eu me arrumo nas tuas paredes).
sábio sou nos teus lábios que envernizam
a alegria e quando digo: oh amada
o teu nome é sempre amanhã.
4. terás amada a sabedoria e terás as velas
que despertam a noite e não a corrompem
quando então partiremos para os jardins do tempo.
Nuno Rebocho
CONFISSÕES DE UM MENINO QUE APRENDE A LER-TE
1
entonteces a noite e as minhas pedras adormecem
quando sou menino no teu cetim. quando salto do meu leito aos teus caminhos e aprendo: a ruim carne despede-se nos seios das árvores para que só o mar cante a tua voz. deixa que a ternura acompanhe os pássaros
para que a noite madrugue, o teu ventre madrugue no texto dos meus olhos. para que eu aprenda os teus caminhos. é bom dizer que te amo. é tão bom dizer que te amo.
2
venho da guerra com a alma espedaçada. onde
está a tua seara onde empregar os meus braços?
quero cozinhar o pão e quebrar os copos do silêncio para que a tua voz seja o clarim das manhãs e os deuses se enterneçam. para que eu amadureça.
3
desfaz-se o silêncio quando os corpos vibram
no suor da noite. és o tempo
das primaveras que nos cobrem se os braços
envolvem o desejo. se os lábios entornam
a alma como sémen no útero da ausência.
se eu recolho as flores da noite
para o altar dos teus seios para te dizer
meu amor, és a boca da vida, és o dia,
a ternura das madrugadas.
Nuno Rebocho
A CELEBRAÇÃO DO ESQUECIMENTO
estilhaçam-se as ravinas dos segredos quando as vozes atravessam o calcário da intimidade: o sagrado lugar dos testemunhos
onde as presenças cheiram. é aí que o esquecimento dói e eu passo
ao outro lado das paredes da vida coada do salitre
desvendando os lugares. sempre queremos
a dilatação dos momentos ou as palavras mudas e murchas como baterias de mortes (as mortes que vão acontecendo dentro dos dias); as palavras mudas como plantas adormecidas
nas águas paradas; as palavras mudas das retaliações e dos tratados como arames farpados nas fronteiras existentes; as palavras mudas
que se mudam nos núcleos cerebrais e deixam o rasto. no calcário da intimidade desbravamos as loucuras e passamos (como eu passo) ao lado das paredes para desvendar os lugares.
fecho os portais para a necessária pudicícia
de me buscar: a escrita é um risco um assalto um crime. como podem saber que há um cadáver em cada verso e um mistério à espera de decifração?
e que fariam aqui as polícias quase incólumes à corrupção do tempo? é desnudo que escrevo como faço amor e depois me liberto do sangue e dos vestígios: o crime perfeito com bacanais de interrogações e de buscas. deixo que a penumbra feche o quarto este quarto dos meus segredos por onde os papéis navegam e os dedos se perdem na procura das dúvidas. se os meus senhorios soubessem destas poucas vergonhas davam-me ordem de despejo e perdia o lugar de me esquecer.
é na claridade que as coisas se confundem: as coisas são indefiníveis e múltiplas porquanto a unidade é o esquecimento por onde a luz entra pelas janelas a indicar-nos as rotas onde
as coisas se fazem objectos e pessoas onde os lugares se definem no breve momento da memória. tudo é disperso
e o esquecimento constrói-se como um traço de união com a eternidade (seja ela qual seja) por onde a luz é apenas a velocidade do possível (seja ele qual seja). é na claridade que as coisas se destroem e se definem e se preparam para o estonteante. na claridade preparamos a memória para o esquecimento.
Nuno Rebocho
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