BAR DOS SENTIMENTOS 

Se você me disser que me ama,
acreditarei.
Apenas lhe pedirei uma dose dupla 
desse sentimento. 

Se você falar de saudades,
vou crer.
Apenas me dê uma dose certa, 
para que eu continue sóbrio. 

Se você disser que para me ver faz milagres,
me tornarei um devoto.
Apenas lhe pedirei uma dose,
religiosamente cúmplice. 

Se você me disser que a vida não tem cor 
sem mim, vou acreditar.
Viro um artista e lhe pedirei uma dose,
de matizes. 

Se você fala que perde a voz ao me ouvir, 
irei às alturas para escutá-la.
Porém lhe pedirei para me servir uma dose,
de razão. 

Se você disser que sua paixão por mim 
é imensurável.
Certamente já estarei quase bêbado.
Mas nesse momento rogarei uma dose,
sem medidas. 

Se você me confirma que poderá ser 
eternamente minha,
irei nessa hora à loucura.
Sem poder ainda tocá-la e
com o pouco da lucidez que me resta,
pedir-lhe-ei 
uma dose do abstrato. 

Enfim,
Com o presságio que já me ocorre nesse 
bar desde que a conheci e 
depois de tantos tragos. 
Já estarei totalmente
ébrio 
e inebriado 
de você...

Marcos Milhazes*** 

Depois Daquele Beijo...

Agora quero que você me beije.
Tentei ocultar esse meu desejo.
Tentei dissimular
a minha paixão.

Invade-me a ânsia
de saber qual é o seu sabor,
antes de tocá-la.
Não quero mais encobrir
a minha vontade arrogante,
que virá com toda a força
de sua vulgaridade.

Neste momento
quero ser um devasso em você ou
um louco da paixão do amor.
Quero enroscar-me em ti.
Leva-la a um gozo que seja eterno.

Quero ver a sua pele
suavemente colar na minha.
Quero banhar-me em seu suor de sexo.
Quero amar
a sua alma.
E...

Depois do fato consumado,
satisfeito em meus desejos
profundamente
profanos,
quero me esticar
de preguiça.

Descansar
em seu corpo insinuante,
que ainda estará ardendo
tal uma fogueira...

Marcos Milhazes***

Acorde Final

No compasso, não do desenhista
Mas sim do artista da música,
Das notas que falavam, dancei.
Como a Clave de Sol,
te toquei

E sem ao menos eu esperar,
Depois de tantos anos
No salão iluminado deslizando,
te vi chegar
E o pior!
Não era eu o seu par
Que coisa ruim, sentir Dó de mim.

Como a vida é um imenso baile
nos salões da alegria ou tristeza
Hoje, te confesso com toda a riqueza
Da introdução da melodia à moça,
minha música, minha musa, minha certeza

E quando a orquestra tocar seus acordes finais
Sejas por um instante minha amiga,
Dê-me essa honra como herança,
Peço licença ao teu cavalheiro
Em nome daquela forte lembrança.

Apenas me conceda, querida, esta última dança...

Marcos Milhazes***
 

 

 


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