A Política
José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
Lançam-se idéias no caldeirão político,
que nem sempre trazem soluções homogêneas,
pensamentos que são doutras fontes congênitas,
não aderem ao conjunto de forma monolítica.
Dizem que a filosofia é mãe da política,
ela é o repositório de sabedoria,
forja procedimentos em polimeria,
com o fim de unir os povos numa visão crítica.
Mas, neste mundo, vai o caldeirão fervendo,
as idéias surgindo á tona, borbulhando,
e os políticos, afinal, não se entendendo.
A nação de mãos postas, rezando, esperando,
mas, quando descobrem alguma solução,
já morremos de tédio ou de inanição.
Breviário da Flor
José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
Enquanto a bela flor enfeita o campo,
um pirilampo emite luz incerta
noutras paragens. E nasce o canto
em metáforas: o poema desperta
a beleza da flor, as penas brancas
do pássaro a voar no imaginário.
No desenho do corpo da potranca
o garanhão legou seu breviário.
E aquele olhar profundo penetrou,
foi além da vil carne, em busca d’alma,
onde o marco poético cravou
moirão de cerne da melhor estirpe.
Palavras de beleza tal são palmas,
enfeitam tudo o que na mente existe.
Gravo o Canto em Pedra
José Moreira da Silva - Porto Alegre - RS
Eu canto, canto, de cantar não canso,
porque eu canto com prazer e gosto,
embora o canto seja triste e manso,
afaga rio meu se todo desgosto.
Às vezes, frio, como o mês de agosto,
e lento corno as águas dum remanso,
espraia-se ele em mim, mirando o rosto
do tempo que passou e do que avanço.
E assim vou, lentamente, passo a passo,
tentando construir neste compasso,
traços feitos de esperança e amor.
Meu desejo, no tempo, se dilui,
mas agravo o canto em pedra, que não rui,
e, deste modo, aplaco a minha dor!