NOITES DE INSÓNIA
José António Gonçalves


o relógio parece a folha de um horizonte parado
no lençol da água fantasiada de pradaria
onde não há cavalos nem heróis ou fantasmas
e as almas são barcos em louca correria
no turbilhão dos cursos invernosos das ribeiras

a ambição é o sono na teia absorta dos enigmas
e as horas petrificam-se no azul cansado da madrugada
sem que alguém pergunte ou responda ou sonhe
o sentido lógico da escrita de todos os pesadelos
ou desminta o destino escondido no código dos silêncios

apenas restam as palavras e o rasto delas
pelas paredes hipnóticas do casario matinal
onde os poetas assaltam o papel e o álcool alimenta
a música do desespero das causas justas e imperiosas
e as esperanças se vestem de pétalas amarelas

as insónias conquistam o direito a ter asas
e voam pelos telhados na desenvoltura perturbada 
dos poemas e frementes de paixão espalham-se 
geométricas como casas distribuídas pelas 
calçadas onde o amanhecer é a certeza de 
que o sangue é quem não dorme disfarçado 
de sentinela ou de fortaleza impenetrável.

(in "Noites de Insónia", Col. 
"Livros de Cordel", nº.1, CMF, 1998)

ESQUIVAS SÃO AS AVES

Esquivas são as aves
quando
magoadas.

Os homens amam a raiva
da ferida
guardando nos olhos os labirintos
dos ódios
sem história.

Esquivas são as aves
desprovidas
de memória. 

ANTES DA ILHA HAVIA UM SOL


Antes da ilha havia um sol abraçando o mar, a força
de um vento soprando por cima das ondas, um verde
de avencas cheirando a entardeceres e um punhado
de corsários atravessando cordilheiras, como quem
sobe penhascos, buscando castelos naturais de pedra,
atraídos por canções de amor, brancas como o Ilhéu da Cal.


Antigamente as palmeiras não se distraíam nos largos
da Vila Baleira, com o som dos murmúrios dos beijos
dos namorados noctívagos, nem as gaivotas lutavam
pelo saciar da fome em terra, loucas no rasto dos navios.
Não se falava do acaso natural do tempo, nem se usavam
hábitos de marinheiro para desculpar os esconderijos
de amores e copos, nem se mirava a química das estrelas
para ocultar as paixões pelas feiticeiras de cada porto
ou o assombramento das alquimias na luz das descobertas.
 

 

 


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