TEJO À NOITE
São luzes antropomórficas
verticais e embuçadas
a verter sombra no Tejo
mas recebendo os reflexos
das irmãs da outra margem
em estuário se abrindo
e levando para o mar
as mágoas e alegrias
tiradas às nossas almas
navegantes como outrora
os torreões levantados
fortalezas junto ao mar
são sinais do meu passado
e prenúncio do além
dum momento para o outro
o vento alevanta o rio
e as fragatas sonolentas
acordam em sobressalto
alvorada do amor
nasceu para toda a gente
em busca do universo
e as águas então paradas
espelho da noite alfim
revoltam-se alvoroçadas
vão a caminho da foz
e levam a nossa alma
que já era apenas uma
e toca nas duas margens
numa cantata de espuma
joaquim evónio
Chapitô, 13 Nov 06
SER POETA
joaquim evónio
Ser poeta
é assumir o desassombro
de emprestar o seu ombro
ao fraco contra o forte,
é ser indiferente à sorte
e dialogar com a morte
de igual para igual!...
E, no entanto...
É tão fácil matar a poesia:
Basta um grão de filosofia,
maldita expressão esquiva,
obediência lasciva
à geometria do pensamento!
Afinal,
ser poeta
é ser flor, fruto, semente,
farol que ensina à gente
o rumo, a rota certa.
Sei que amar,
sim,
é preciso...
Por isso, poeta amigo,
até cortar a meta...
Eu vou navegar contigo!
CLAVE DE SOL
O silêncio ouve a terra húmida
enamorada das galáxias
e vibram almas nuas
na atracção dos astros.
Espelhadas pelo nada
reflectem o contorno do tempo
horizonte de pautas
no perfil altaneiro da montanha.
Murmúrios de luz
desenham saudade
e florescem claves de sol
no muro das lamentações
(in " Rimbaud - révue sémestriel
internacional de création littéraire ")
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