NÃO ME ESQUEÇAS
Ilona Bastos
Por favor, não me esqueças,
Só porque o mundo gira e rola,
As aves evadem-se para o Norte
E as flores recolhem-se, no silêncio.
Por favor, não me esqueças,
Nem quando a lua se esconde, no céu,
E as nuvens viajam, clareadas,
Na noite que desce sobre nós.
Por favor, não me esqueças,
Até que eu chegue ao sol poente
E me volte para ti, acenando,
Suba o arco-íris, cantando,
E desapareça na névoa e no mar.
Só, então, sim, tu podes, tu deves
Esquecer-me. Não serei mais
Que uma onda de espuma
Banhando a areia.
NÃO ESTÁS SOZINHO!
Ilona Bastos
Também eu - quem fui, já mais não sou!
Penso, e não penso, o que então pensei,
Sonho, e não sonho, o que em vão sonhei,
Que o desespero, tão perto de mim rondou…
Mas há momentos em que tudo muda:
Uma palavra, um gesto, uma afeição,
O que, não mostrado, logrou ver, a razão,
O que, não dito, meu coração desnuda.
E só por isso - até se os anos passam,
Se os apelos, desatendidos, murcham,
Se o desejo, insatisfeito, se aniquila,
Se mesmo a fé, perante o mal, vacila -,
Há esta réstia de esperança viva,
Há esta chama que brilha e alumia,
Há este trilho que guia o meu caminho,
Há esta luz que diz: não estás sozinho!
NA ESPLANADA
Ilona Bastos
Nestes dias frios e ensolarados,
Ruas e rossios de Inverno pintados,
Enchem-se esplanadas de quentes roupagens,
Sempre renovadas antigas imagens.
Como em tempos idos, há cabeças brancas,
Senhoras idosas de gestos pausados,
Há conversas longas e faces atentas,
Até mantas grossas de lã aos quadrados,
Que lembram convés, cadeiras de lona,
Balanço do mar que em sonho retorna.
Como antigamente, há lindos meninos,
Belos caracóis, passos pequeninos.
Há bolas e carros, e o cão a ladrar.
Torradas no prato, leite a fumegar,
E água a luzir, fresca, transparente,
No centro da mesa, estrela refulgente.
Há os cavalheiros, tal como era dantes,
Lendo os seus jornais com toda a atenção.
De lápis na mão, jovens estudantes
Livros sublinham com sofreguidão.
Sábias teorias têm de estudar,
Para um dia o Mundo poderem salvar.
Neste dia frio, mas ensolarado,
Rua e rossio olho com agrado.
Vejo, de repente, parando a sorrir,
Passado e Presente, Futuro a florir.