Nossa meta
Humberto Rodrigues Neto


Tenhamos todos, por divina meta,
servir ao próximo, qualquer que seja
sua cor, sua raça, seu saber, sua igreja,
seja sua vida dissoluta ou reta.

A todos prestaremos nosso amparo,
levando ao triste o fraternal conforto,
e o gesto de consolo ao que vê morto
o amado amigo ou o parente caro.

Ao cego estenderemos nossa mão,
e ao fraco a nossa frase de incentivo;
ao ébrio, no seu transe depressivo,
conduziremos ao seu barracão.

Que às mágoas todas cale a nossa voz,
que aos nossos ombros nunca pese a cruz;
assim agindo, nosso irmão Jesus
há de sorrir quando pensar em nós!

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Saudade...
(àquela que foi minha esposa)
Humberto - Poeta


Teu desencarne fez-me descontente,
com a alma e o coração sempre em quebranto;
do nosso lar foi embora o antigo encanto 
que tu levaste assim... tão de repente!

Do alto onde estás podes sentir o quanto
por ti pranteio ao te sentir ausente,
e nada existe que tão fortemente
me incline à solidão e ao desencanto!

Não mais teus lábios, nem os teus abraços
tentei buscar noutros alheios braços,
preso à paixão que só por ti nutria!

E hoje vergado a esta infelicidade, 
a Dor se fez a esposa do meu dia,
e à noite faço amor com a Saudade!

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Se...
Humberto - Poeta


Ouve, meu bem, se alguma convulsão
despedaçar os astros lá no céu,
e cinza, e fumo, e fogo em profusão
der às cidades um dantesco véu;

se a chuva de meteoros da amplidão,
estrondejando em hórrido escarcéu,
fender o mar e esfacelar o chão
pondo as entranhas do planeta ao léu;

se o solo, em cavo e rouco estrepitar,
em hecatombe às águas se fundir;
se cada estrela mergulhar no mar...


inda que a Terra espesso enxofre cubra,
nada verei se ao te abraçar sentir
de encontro aos lábios a tua boca rubra!


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Ressurreição
Humberto Rodrigues Neto


Nem como dogma a ressurreição,
em sã consciência, pode ser aceita;
bem mais plausível é a reencarnação
aos que não usem de uma mente estreita.

Se morremos, ao éter a alma voa,
e os corpos ficam para sempre inermes
na terra fria, a transformar-se, à toa,
num voracíssimo festim de vermes!

Já como esterco damos vida à planta,
que vai servir de pasto a um animal,
do qual fazemos nosso almoço e janta
pra voltarmos ao lixo original!

Não se pode aceitar que após milênios
de contínua e total degradação,
voltem tais corpos, no julgar de “gênios”,
a recompor-se na ressurreição!

Já disse Paulo, sobre esta questão,
na epístola aos Coríntios e aos incréus,
que é impossível haver ressurreição,
pois nem carne e nem sangue entram nos céus!

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